A classe dirigente brasileira

Há uma regra universal na esfera política: todas as sociedades, em todos os momentos históricos, são sempre governadas por um grupo que numericamente é minoritário, ainda que se intitulem como sociedades democráticas.

É bastante fácil, mesmo para os mais leigos, perceber que em todas as sociedades existe uma classe dominante – chamada de “classe dirigente” – e uma classe dominada. Contudo, como pode a minoria controlar democraticamente a maioria? Justamente por ser minoria: isto significa dizer que essa minoria sempre será “organizada” e, portanto, conseguirá controlar a maioria, sempre desorganizada.

Além disso, pode-se afirmar que os membros da classe dirigente constituem um grupo homogêneo e solidário entre si, em contraposição aos membros mais numerosos da sociedade, que se encontram divididos, desarticulados e consequentemente, desorganizados. Ainda, os integrantes da minoria possuem algum predicado, seja este real ou aparente, moralmente bom ou ruim, altamente valorizado e de muita influência na sociedade em que vivem, o que lhes permite permanecer no poder.

Outra maneira possível de fazer parte da classe dirigente é a hereditariedade. A situação óbvia de hereditariedade é aquela na qual o acesso à classe dominante seria restrito à família que está no poder. Já em sociedades democráticas – que implicam na existência de algum tipo de voto ou escolha popular – esta hereditariedade manifestar-se-ia não por meio da família e sim de “padrinhos políticos”, que auxiliam seus “familiares” a chegarem e/ou permanecerem no poder.

É claro que existem concursos, exames, competições e, principalmente, eleições, ou seja, mecanismos disponíveis a todos em igualdade de condições formais, o que, teoricamente, permitiria o acesso universal à política; entretanto, a maioria nunca possui os recursos necessários para fazer frente à despesa da longa preparação, sendo privadas do acesso às esferas políticas.

Há ainda outro ponto que pode ser destacado no sentido de levar uma pessoa a atingir altos postos de governo: é sua capacidade intelectual, formada com a “ajuda” do meio em que a pessoa cresce. Assim, todo indivíduo é inevitavelmente influenciado pelo nível intelectual no qual a natureza o colocou. Importante destacar também que, no caso da educação, a riqueza tem um papel fundamental, pois os meios de exercer influência social são sempre de mais fácil acesso aos ricos que aos pobres.

Entretanto, pode-se afirmar que as classes dirigentes declinam inevitavelmente quando param de encontrar objetivo para as capacidades por meio das quais subiram ao poder, quando não podem mais prestar os serviços sociais que prestavam ou quando seus talentos, bem como os serviços que executavam, perdem importância no ambiente social em que vivem.

Ainda assim, a classe dirigente pode ser vencida quando do aparecimento de um novo conhecimento, ou o resgate de um conhecimento antigo e esquecido, fazendo com que novas crenças venham à luz e alterem o modo de pensar das massas obedientes – fazendo com que se substitua uma elite por outra.

Talvez o leitor acredite que o autor destas linhas esteja se referindo à sociedade brasileira atual. Aquele que assim pensa se engana. O pensamento apresentado acima foi criado em 1896 por Gaetano Mosca, cientista político, jornalista e senador italiano. Mosca viveu entre 1858 e 1941 e é considerado um dos criadores da chamada “teoria das elites”, juntamente com Vilfredo Pareto e Robert Michels.

Para ser completamente aplicável ao Brasil atual, arrisco-me a afirmar que a teoria de Mosca deveria prescindir da ideia de declínio da classe dirigente. Dentre vários outros, analisemos três políticos importantes no nosso período: FHC, Lula e Sarney. Quando surgiram para a política? Ainda durante o período militar, há mais de 30 anos atrás. Houve renovação no período? Sem dúvida que sim, mas… Até que ponto? Até que ponto a classe dirigente de 30 anos atrás deixou de ser classe dirigente? Acredito que em nenhum momento isso aconteceu. De duas uma: ou os “novatos” foram cooptados pelas antigas “raposas”, já presentes no cenário político brasileiro – saindo da maioria desorganizada e passando a fazer parte da minoria organizada –, ou a população simplesmente não pensa em renovação – reclama dos já existentes mas vota nos mesmos, acreditando que algum tipo de “iluminação divina” fará com que a classe dirigente atual efetivamente responda aos seus anseios. Ou ainda – hipótese mais provável – uma união das duas coisas: cooptação dos políticos novatos com falta de interesse do cidadão em participar politicamente.

(Publicado originalmente aqui.)

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