A política como ela é

Maquiavel é considerado o primeiro cientista político moderno porque ele foi o primeiro autor a criar uma separação que nós, cientistas políticos, consideramos fundamental em nossas análises nos dias de hoje: a separação entre o que é e o que deveria ser. Longe de mim aqui afirmar que devemos nos contentar apenas com o que é: acredito que devamos sempre buscar o que deveria ser, mas com os pés no chão, nos embasando no que já existe para não dar um passo maior do que as pernas. Mas isto é história para outra postagem; meu objetivo hoje é outro.

Abaixo o título de uma notícia no G1. Quem quiser lê-la, é só clicar no link.

Após elogio de tucano, Lula diz que obras do governo não têm intenção eleitoral. Com Dilma no palanque, Lula voltou a dizer que elegerá sucessora. Em Alagoas, presidente citou que Renan e Collor têm ajudado governo.”

Resumidamente, a notícia traz os seguintes pontos:

  1. Lula está em Alagoas inaugurando obras do PAC. A tiracolo estão Dilma Rousseff (PT, chefe da Casa Civil), Geddel Vieira Lima (PMDB-BA, Ministro da Integração Nacional) e Fernando Collor de Melo (PTB-AL, senador).
  2. O governador de Alagoas, Teotônio Vilela Filho (PSDB), elogiou Lula várias vezes.
  3. O senador Renan Calheiros (PMDB-AL) foi citado pelos presentes várias vezes.
  4. Lula elogiou Collor e Calheiros pelo apoio dos dois ao governo.
  5. Lula criticou os ex-presidentes porque eles tinham apenas intenções políticas em suas ações governamentais, e afirmou que em seu governo o fato do governador ser da oposição não o torna inimigo.
  6. Lula afirmou que elegerá sua sucessora.

Da lista acima vem o título desta postagem.

Senão, vejamos:

  1. O PT e o PSDB, como todos sabem, são os grandes opositores na eleição do ano que vem. No entanto, o governador do PSDB elogia o presidente do PT. Não quero dizer que eles precisam ser inimigos, é claro que não. Mas uma coisa é tratar seu opositor com respeito, outra é puxar o saco descaradamente. Uma mão lava a outra: o PT precisa do Nordeste para eleger a “companheira”, e o governador precisa das verbas federais para fazer o serviço interno (e quem sabe ser reeleito, ou eleger quem queira).
  2. Lula afirma na reportagem que “não pode falar de eleição”. Então por que Dilma subiu ao palanque? Então por que Lula afirma que elegerá sua sucessora? “Não citei nomes”, dirá o presidente, mas até a porta aqui de casa sabe que Dilma é a candidata de Lula (notem a diferença: candidata de Lula, não do PT).
  3. Lula criticou seus antecessores, que faziam “política” e não “ações governamentais”. Quando Lula sobe em um palanque e diz que vai eleger sua sucessora, ele está fazendo o que mesmo?
  4. Será necessário relembrar a disputa entre Lula e Collor em 1989, e tudo o que um falou do outro?
  5. Será necessário relembrar o apoio de Renan Calheiros a Collor (opositor de Lula), depois a Fernando Henrique (opositor de Lula), antes de pular para dentro do governo Lula?

Das poucas frases acima depreende-se a distinção elaborada por Maquiavel: se vivêssemos no mundo do dever ser, com certeza nada disso aconteceria. Mas como vivemos no mundo do que realmente é, temos de engolir essa conversa pra boi dormir. E a situação fica pior ainda quando percebemos que, na verdade, não há um projeto político, de longo prazo, mas sim um projeto de poder — tanto de um lado quanto de outro –, que faz com que aquele que representaria as aspirações populares, para se manter no poder, tenha de se submeter àquela parcela da política brasileira que representa os elementos mais retrógrados do Brasil: o clientelismo, o populismo, o patrimonialismo, em suma, a privatização do público em benefício privado.

A situação fica ainda mais complicada quando percebemos que a independência dos poderes, garantida pela Constituição, não existe na prática, especialmente no que diz respeito às relações entre Executivo e Legislativo. Não há mais a separação de poderes de Montesquieu. De uma república, o Brasil atual passou a ser uma espécie de autoritarismo maquiado, posto que o Executivo tenta, a todo custo, controlar o Legislativo. É por isso que Collor e Renan Calheiros estavam com Lula — não apenas por serem alagoanos, local de inauguração da obra, mas porque representam parte da sustentação governista dentro do Congresso. É por isso que Lula bancou a permanência de Sarney na presidência do Senado. E é por isso que, “nunca antes na história desse país” se viu tamanho controle do Legislativo pelo Executivo.

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