Eterna ausente

A corrida eleitoral para 2010 já começou, conforme demonstram as movimentações e balões de ensaio de candidatos, pré-candidatos, pseudocandidatos, anticandidatos, caciques partidários, governadores, prefeitos, ministros, o presidente da República e quem mais tenha interesse direto na questão.

Resultados de pesquisas de preferência eleitoral são analisados com olhos de lince à procura de vulnerabilidades de possíveis adversários que possam ser exploradas, filões a serem cultivados, discursos a compor de modo a agradar a esta ou aquela parcela do eleitorado.

Como a política brasileira há muito perdeu a referência ideológica, tendo mergulhado de cabeça no cultivo das percepções superficiais gerenciadas pelas manipulações do marketing, pode-se antecipar que a eleição de 2010 será de uma chatice ímpar.

Ninguém, seja na eleição para presidente, seja para governador, abordará qualquer assunto capaz de perturbar as expectativas feijão-com-arroz de qualquer parcela do eleitorado.

Como a busca por votos pelos candidatos dá-se visando parcelas específicas do eleitorado, e como as aspirações e demandas de cada parcela são geralmente incompatíveis ou no mínimo incomensuráveis com as demandas e aspirações das demais parcelas, e como os discursos dirigidos a cada uma delas não podem ser diretamente contraditórios entre si, o resultado é uma pasteurização geral e uma convergência em torno de proposições politicamente corretas e tão generalizantes que se aproximarão do nada a respeito de saúde, educação, saneamento etc.

Nenhum assunto controverso será discutido publicamente pelos candidatos. Decerto eles o farão no âmbito de encontros restritos com representantes do meio empresarial. Esses são os únicos interlocutores que candidatos de fato levam a sério.

Haverá alguns gestos simbólicos de candidatos visando intelectuais das áreas “humanas”, mas isso será para inglês ver, porque esses intelectuais não têm importância nenhuma na vida brasileira.

Um assunto permanecerá, como de hábito, intocado nas campanhas — o combate à corrupção.

O problema básico com o assunto da corrupção é que, para a generalidade do público brasileiro, que é enormemente influenciada por um ponto de vista de fundo religioso, corrupção é um problema moral, a ser resolvido ou encaminhado pela transformação das pessoas. Formem-se pessoas honestas e não haverá corrupção.

Como essa é a perspectiva do público, o que candidatos às vezes fazem é acusar o adversário de corrupção. Mesmo isso desapareceu da política nacional e ao menos nos principais estados, porque não se pode realmente acusar um sujeito de conivência com corrupção numa campanha eleitoral sem mostrar indícios concretos. Como esses indícios quase nunca existem, as acusações, que eram comuns antigamente, não mais surgiram nas campanhas eleitorais. No máximo uma pergunta ou insinuação num desses soporíferos debates televisivos.

O que é bom. Não se progride um milímetro no combate à corrupção quando o assunto é tratado como arma para ferir o adversário.

Corrupção tem causas, e para combatê-las não adianta trocar as pessoas. É necessário alterar as causas institucionais (leis, regulamentos etc.) e gerenciais.

Seria de esperar de candidatos à Presidência e, ao menos, ao governo de estados com PIB e arrecadação tributária razoáveis (limitam-se estes ao Sul/Sudeste, acrescidos da Bahia, os quais em conjunto respondem por cerca de 80% do PIB nacional), que tivessem alguma noção das causas da corrupção e que tivessem o quê dizer sobre as formas de combatê-la.

Se conhecem as causas, nunca afirmam coisa nenhuma a respeito. (Contam para isso com a inépcia dos repórteres brasileiros que os entrevistam, os quais tampouco chegam lá, permanecendo sempre no território superficial dos escândalos específicos.)

Explica-se: uma pessoa que se candidate à Presidência da República ou ao governo de um estado minimante organizado teve, necessariamente, uma carreira construída no ambiente público. É impossível que essa pessoa desconheça os principais motivos pelos quais a corrupção acontece na administração pública: o loteamento de cargos entre aliados é feito para dar mão livre aos partidos políticos em troca de apoio parlamentar. E uma maior eficiência administrativa feriria os interesses dos partidos beneficiários do loteamento, pois maior eficiência pressupõe melhores mecanismos de prevenção e controle.

Como o que querem os partidos da “base aliada” (qualquer “base”, em qualquer lugar) é fazer caixa e empregar cupinchas, os candidatos ao Executivo jamais mencionarão o que é central no combate à corrupção, pois se fizessem isso causariam imediata debandada de possíveis aliados.

Assim, apesar de escândalos de corrupção se sucederem no país, e apesar de a corrupção acarretar perdas imensas de recursos públicos, ninguém falará disso.

(Original aqui.)

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