Entrevista

No último sábado, dia 26/09/2009, fui entrevistado por Bruno Kazuhiro, editor do site Perspectiva Política, do qual sou colunista. Abaixo a entrevista e as respostas.

O Perspectiva Política, na pessoa de seu autor Bruno Kazuhiro, conversou, encerrando a série de entrevistas, com um dos colunistas de sábado, Matheus Passos, a respeito de suas opiniões políticas e pessoais, confiram:

1- Que influência a função de colunista do Perspectiva Política tem exercido na sua experiência pessoal? O que de positivo esta tarefa lhe traz?

O maior ponto positivo ao escrever no Perspectiva Política diz respeito à possibilidade de realizar algo que considero fundamental para o desenvolvimento da política brasileira: a conscientização da população. Não a conscientização que manipula, que faz o indivíduo seguir este ou aquele político, mas sim a conscientização que faz com que o indivíduo pare, pense, raciocine e, a partir daquilo que lhe é oferecido no “mercado político”, escolha o que acha que é melhor para si e para sua comunidade.

2- Fale um pouco da sua vida pessoal: Como você se descreve como pessoa em poucas palavras?

Sem dúvida esta é a pergunta mais difícil da entrevista, posto que falar de nós mesmos é algo sempre complicado. Tenho 32 anos e acredito estar na melhor fase da vida porque posso colocar em prática e compartilhar com meus alunos – sou professor de instituições de ensino superior – aquilo que pude aprender e apreender durante meus estudos e minha vida profissional anterior. Nesse sentido, considero-me uma pessoa exigente, porque acho que o ser humano não deve se acomodar com o que já tem, devendo sempre buscar melhorar. Além disso, posso colocar essa exigência em prática quando estou em sala de aula – e não apenas ali, mas em todos os aspectos da minha vida.

3- Qual a sua posição político-ideológica? Por mais que o pensamento político tenha muitas facetas, como você delimitaria o seu?

Sempre me defino como de “centro-esquerda”. É uma definição complicada, especialmente para aqueles que têm um pensamento dicotômico e que acreditam que exista apenas “uma” esquerda e “uma” direita. Definição difícil também para aqueles que acreditam que não existe “centro”, e que acham que “centrista” é aquele que concorda com tudo e, consequentemente, não concorda com nada.

Entretanto, discordo desse pensamento simplista e acho perfeitamente possível a existência do pensamento de centro-esquerda. Tal pensamento, mais conhecido como “social-democrata”, é um pensamento que pressupõe a existência da ação social do Estado com o objetivo de minimizar o sofrimento daqueles que são desfavorecidos econômica e socialmente, ao mesmo tempo em que busca garantir a liberdade do indivíduo frente a esse mesmo Estado. Obviamente, falo aqui em seu sentido teórico, e nosso País, definitivamente, não corresponde exatamente ao modelo teórico ao qual me refiro. Contudo, creio que este seja o posicionamento político mais adequado à situação em que vivemos porque o socialismo extremo pode até garantir a satisfação das necessidades sociais dos indivíduos, mas o faz ceifando a liberdade; por outro lado, o pensamento liberal enfatiza as demandas de liberdade individual, mas menospreza o fato de que não são todos que podem usufruir de sua liberdade com o objetivo de satisfazer suas demandas sociais. Assim, seguindo a linha de Aristóteles, Buda e Confúcio, acho que o “caminho do meio” é o melhor.

4- Que livro você indicaria para os leitores do Perspectiva?

Mais uma vez meu colega Bruno me aperta, pois indicar apenas um livro seria complicado. Tomo a liberdade de sugerir três livros, em três áreas distintas. O primeiro deles se chama “Teoria geral da política”, de Norberto Bobbio. Considero este um livro fundamental para todos aqueles que tenham interesse em ter boa fundamentação a respeito da política, tanto em aspectos históricos, quando em aspectos analíticos. Outro livro que sugiro é o “Aprender a viver”, de Luc Ferry. Apesar do título ser semelhante ao de livros de auto-ajuda, este é um livro de filosofia no qual o autor, ex-Ministro da educação na França, mostra de que forma é possível utilizar o conhecimento filosófico no dia a dia, desmistificando a ideia de que “filosofia” é falar, falar e não dizer nada. Por fim, gostaria de indicar o livro “Os irmãos Karamazov”, do russo Fiodor Dostoievski, considerada uma das maiores obras-primas da literatura mundial.

5- Como você enxerga a consciência política, a cidadania e o civismo do cidadão brasileiro atualmente? Há avanço ou o contrário?

O avanço é contínuo, e quanto a isso não tenho dúvidas. Basta compararmos as alterações na estrutura do Estado brasileiro nos últimos 30 anos, e veremos que, claramente, de maneira geral, há avanços. O problema se situa no fato de que, em minha opinião, tais avanços são extremamente lentos e, muitas vezes, um passo adiante é seguido de dois passos para trás. E quando saio de uma visão mais geral, mais ampla, de Estado e sociedade, e passo a analisar as ações políticas do cidadão em seu dia a dia, a sensação que tenho é de desânimo. Acredito que o maior contribuinte para tal desânimo seja a apatia do povo brasileiro, que faz com que sejamos, por um lado, acomodados – porque estamos satisfeitos com aquilo que temos –, e, por outro, incrédulos – por acharmos que não adianta nada participar politicamente porque “todos são iguais”, “todos roubam”, e, por isso, “não compensa debater política”. Enquanto a sociedade brasileira pensar desta forma, deixará de ocupar um espaço que é seu por natureza e, obviamente, tal espaço será ocupado por alguém – que nem sempre considerará tal espaço como público e, por isso mesmo, nem sempre representará efetivamente a população.

6- Você é fã de algum pensador político ou de algum personagem da política? Se sim, quem? Por quê?

Esta é mais uma pergunta complicada, especialmente para um professor de ciência política e de filosofia política. Tenho alguns preferenciais: Platão, devido ao seu racionalismo e por ter dado o pontapé inicial à ciência política; Maquiavel e Hobbes, devido ao seu realismo em relação ao que deve ser feito para a manutenção da ordem; Kant, devido ao seu imperativo categórico que, por mais simples que seja no enunciado, é complicado de ser posto em prática; Marx, porque foi um dos primeiros a realmente buscar mudar a realidade em que vivia; e Weber, devido à importância de seus escritos para a análise das sociedades contemporâneas.

7- Você pretende auxiliar de alguma forma a melhora da prática política nacional? Já tem em mente como?

Como professor, acredito desempenhar o papel de dar o embasamento necessário aos meus alunos – e não são poucos, mais ou menos 600 por semestre – para que os mesmos possam se conscientizar do fato de que política não é a mesma coisa de politicagem. E sou adepto da ideia de pequenas ações: se cada um fizer sua parte, no somatório final muito será feito. E, ao contrário, nada será feito enquanto ficarmos de braços cruzados esperando que o estado atue “em nosso benefício”.

8- Se você tivesse que ouvir uma música só durante dias, qual seria ela?

Seria “Adágio em Sol Menor”, de Tomaso Giovanni Albinoni, compositor italiano barroco que viveu entre 1671 e 1751.

9- Faça uma análise da corrida presidencial de 2010: O que você entende que ocorrerá provavelmente?

Se nada de muito drástico ocorrer neste próximo ano, acredito que se concretizará a previsão de todos: Serra e Dilma concorrerão ao Planalto no segundo turno. Acredito que Serra tem certa vantagem frente à Dilma porque o brasileiro é muito personalista, o que significa dizer que não será fácil transferir a aprovação popular de Lula à candidata do PT. Isto não significa dizer, contudo, que Serra está com a eleição ganha, e caso ganhe será muito mais por uma falta de um “novo Lula” do que por méritos próprios – em outras palavras, será por falta de opção. Não consigo enxergar Ciro e Marina – e quiçá Heloísa Helena – sendo capazes de “tirar o caneco” das mãos de uma das duas figuras políticas anteriores.

10- Se você pudesse passar o conceito de apenas uma frase de efeito para seus filhos, que frase seria essa?

“As religiões são caminhos diferentes convergindo para o mesmo ponto. Que importância faz se seguimos por caminhos diferentes, desde que alcancemos o mesmo objetivo? Onde está o motivo para as brigas?”, de Gandhi – e aproveitaria para expandir o raciocínio das religiões para toda e qualquer área do relacionamento humano.

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