Egito — terra de contrastes (II)

Publicado originalmente no site Perspectiva Política

Após uma pequena “parada técnica” durante o carnaval, período que aproveitei para visitar minha família em MG (já que esta é praticamente a única época do ano em que posso visitá-los com tempo), retorno ao Perspectiva Política com minha segunda postagem sobre minha viagem ao Egito. Para aqueles que ainda não leram, a primeira postagem pode ser vista neste link.

O primeiro ponto que gostaria de destacar se refere aos aspectos econômicos do dia a dia do Egito. Nós, brasileiros, quando comparados com os egípcios, somos ricos. É claro que existe pobreza aqui no Brasil, da mesma forma que existe riqueza no Egito. Contudo, a impressão que tive no dia a dia da viagem é a de que eles vivem com muito menos do que a classe média brasileira. Por exemplo: comer em um McDonald’s por lá é coisa “de rico”, foi o que me falaram várias pessoas. Imagino ser necessário “dar um desconto” a respeito de tal informação, mas na prática o que vi foram egípcios com sapatos fechados (tênis, sapatos ou algo do tipo) no McDonald’s, enquanto a maioria dos transeuntes usava uma sandália de couro nas ruas. O que vi foram pessoas vestidas com tecidos e cortes melhores em comparação com aqueles que estavam do lado de fora. Outro exemplo: quando conversei com o capitão de uma felucca em Aswan e disse ao mesmo que estava gastando por volta de dez dólares por dia com alimentação (incluído nesse valor almoço e jantar/lanche, pois o café da manhã estava incluído na diária do albergue), o mesmo disse que eu era rico e que devia estar comendo nos lugares errados, pois estava muito caro. Alguns dirão que Aswan é uma cidade “pequena”, “do interior”, e por isso os preços são baratos mesmo. O que dizer então do Cairo, capital do Egito e uma das maiores cidades do mundo, na qual eu gastava por volta de quinze dólares por dia indo a restaurantes egípcios? Mais um exemplo: os táxis no Egito são extremamente baratos quando comparados com o preço do Brasil (ou, pelo menos, com os daqui de Brasília). Quando visitei Dahshur e Saqqara, contratei um táxi pelo dia inteiro para fazer uma viagem de mais ou menos 120 km naquele dia, com o táxi ficando à minha disposição o dia inteiro, e paguei o equivalente a cinquenta reais. Aqui em Brasília, dependendo do trânsito, uma ida da rodoviária ao aeroporto custa trinta reais, em um trajeto 15 km.

O segundo ponto diz respeito à política egípcia e à idolatria que eles têm em relação ao atual presidente, Hosni Mubarak. Não tive muito contato com a mídia egípcia, até porque a maioria está em árabe, mas pelo pouco que percebi nos jornais impressos e televisivos em inglês, não há absolutamente nenhuma crítica ao presidente. Da mesma forma, as poucas pessoas que aceitaram conversar sobre o presidente comigo foram “só elogios” ao mesmo, afirmando sempre que ele está fazendo o melhor para o país e que se não fosse por ele a situação egípcia seria muito pior. Neste sentido, é difícil para eu chegar a uma conclusão pois sabe-se que o Egito, apesar de ter formalmente um sistema democrático – com a possibilidade de existência de vários partidos e com a possibilidade de vários candidatos à presidência – é, na prática, uma ditadura, o que, somado com o curto período de estadia, dificulta a observação efetiva da realidade política do país.

O terceiro ponto de destaque diz respeito ao aspecto religioso – que, na verdade, me pareceu dominar os dois anteriores. Como se sabe, o Egito é um país islâmico, com mais de 90% de sua população se identificando como muçulmanos, e os princípios desta religião ditam o dia a dia do egípcio. Cinco vezes ao dia ouve-se o chamado às orações islâmicas – com a primeira delas acontecendo geralmente ainda de madrugada. O resultado disso é que tais chamados acabam por estruturar e regular tudo, desde os negócios – não foram poucas as vezes em que uma lanchonete estava fechada no meio da tarde para que os trabalhadores rezassem – até o divertimento – não pude visitar certas áreas do templo de Kom Ombo, por exemplo, porque os guardas responsáveis por tais áreas estavam rezando.

A religião tem papel fundamental também na arquitetura egípcia: para todo lugar que se olha, há um minarete. Especificamente no Cairo, há a área chamada de “Cairo Islâmico” – a parte antiga da cidade – na qual estão presentes mais de 800 monumentos históricos, grande parte deles mesquitas com seus inúmeros minaretes. Estar nessa região no momento das orações é algo completamente diferente daquilo que eu estava acostumado quando se referia a “orações”, porque todas as mesquitas soam ao mesmo tempo, tornando a área realmente ensurdecedora.

A religião desempenha, ainda, importante papel na definição das relações sociais entre homens e mulheres. No metrô do Cairo, dois vagões de cada composição são exclusivos para mulheres, e nos demais vagões as mulheres deveriam entrar apenas acompanhadas (digo “deveriam” porque, na prática, isso não aconteceu o tempo todo). Como se sabe, o Islamismo define que as mulheres andem pelas ruas com os cabelos envoltos em um véu, com a justificativa de que isto impede os homens de terem pensamentos libidinosos e cometerem alguma besteira. Assim, era extremamente interessante (e diferente) ver mulheres andando completamente cobertas nas ruas – cheguei a ver algumas que estavam de óculos escuros, impedindo-me de ver até mesmo os olhos – em pleno sol de meio-dia – apesar de em janeiro ser inverno no Egito, as temperaturas de dia chegavam aos 25, 28 graus.

É necessário falar também sobre a importância da religião no que diz respeito aos crimes de rua. Tenho uma câmera digital semi-profissional e andei com a mesma pendurada no pescoço durante todo o período em que estive no país. Logicamente isto não significa dizer andar com a câmera em uma rua sem iluminação às 2 h da manhã, mas quero dizer que podia ir a qualquer lugar sem correr nenhum perigo de ser assaltado. Senti-me muito mais seguro ao caminhar em Aswan ou mesmo nas partes mais pobres do Cairo com a câmera no pescoço do que me sentiria aqui em Brasília de dia. Sem dúvida a presença policial – constante em todos os lugares turísticos – ajudava a coibir qualquer tentativa de roubo, mas a religião também tem esse papel, como pude perceber em diversas conversas a naturalidade com que eles diziam que não se deve furtar porque Alá não permite e/ou porque no Corão está escrito que isto não deve ser feito.

Por fim, gostaria de destacar uma última impressão que tive no que diz respeito à união destes três itens – economia, política e religião: parece-me que o Egito está em uma encruzilhada. Por um lado há a forte presença dos princípios islâmicos em todas as esferas sociais, mas por outro o país precisa ser receptivo aos turistas – uma das suas maiores fontes de renda – e, para isso, às vezes é necessário passar por cima de alguns princípios. Notei uma tensão extrema entre os princípios religiosos, por um lado, e os interesses mundanos, por outro, e talvez seja isso que torne o Egito um país extremamente interessante de ser visitado.

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