Juros e política

(Comentários ao final.)

A reunião do Copom esta semana será a mais difícil do governo Lula. Houve outras que foram verdadeiros testes de autonomia do Banco Central. Nesta, os rumores de que o presidente do BC pode se afastar para retomar a carreira política e as pressões contra a alta dos juros por causa do “calendário cívico” alimentam as dúvidas sobre o que acontecerá.

Os analistas estão divididos. O Itaú Unibanco acredita que os juros vão subir 0,5 ponto percentual. O Bradesco também acredita em um aumento de 0,5 ponto percentual. A Tendências acha que os juros não vão subir em março, só em abril. A MCM também aposta que os juros vão subir só em abril, mas acha que o certo seria subir agora.

O economista José Júlio Senna, da MCM, analisando novamente as atas dos momentos críticos, disse que o BC só muda a trajetória dos juros depois de uma ata forte. Foi assim em 2007, quando parou de reduzir os juros; em 2008, quando elevou as taxas; e em 2009, quando voltou a cortar. Por isso, acha que o BC vai elevar o tom nesta ata e subir juros só na próxima. Mas não acha que isso seja o melhor:

— Pelo cenário atual, o recomendável seria subir juros já na quarta-feira. Do contrário, teremos 45 dias de piora das expectativas — disse Senna.

O Banco Central do Brasil não é autônomo. Ele tem tido autonomia. Nos grandes testes, o Copom acabou decidindo — certo ou errado — mas contrariando pressões explícitas da Fazenda e outros setores do governo.

Pelo manual das metas de inflação, há motivos para subir os juros: a inflação pelo IPCA acumulada em dois meses é de 1,54%, um terço da meta, e é o que o Banco Central, em dezembro, tinha projetado para todo o primeiro trimestre. A projeção da Ativa Corretora para o IPCA acumulado no trimestre é de 2%. O IGP-DI, que terminou o ano com deflação, em dois meses acumulou 2,11%. O Boletim Focus, que traz a projeção média do mercado, já prevê 5% de inflação no ano.

Recentemente, o presidente do BC, Henrique Meirelles, disse que as decisões não são tomadas olhando-se o “calendário cívico”. O texto dessa declaração foi preparado por ele mesmo, e não por assessores. Ele leu e não deu entrevistas. Era aquilo mesmo que queria dizer. No outro dia, no entanto, o ministro Guido Mantega disse que não era exatamente aquilo que Meirelles quisera dizer.

Até hoje Meirelles tem de fato ficado imune ao calendário político, mas o que acontecerá se em seus planos estiver o de se afastar em abril para concorrer nas eleições deste ano?

Há quem se pergunte se será possível ao BC iniciar um ciclo de aumento das taxas, o que significa elevar a cada reunião um pouco, apesar da tensão que isso vai causar no governo por causa da campanha eleitoral.

Preços em alta sempre pioram o humor do eleitorado; juros crescentes sempre pioram o humor dos políticos, empresários e dos que dentro do governo acham que o Banco Central tem sido conservador demais. Esse será o dilema nesta e nas próximas reuniões do Copom.

Se Meirelles sair, uma equipe mais dócil pode acabar evitando a elevação das taxas, e isso poderia realimentar a inflação. Se ficar, certamente continuará apostando tudo na manutenção da inflação baixa para manter a reputação de independente.

O Itaú Unibanco acha que os juros sobem meio ponto, e já esta semana.

— O Copom vai iniciar na próxima reunião uma série de elevações graduais da taxa. Acreditamos que serão quatro aumentos consecutivos, que começará por meio ponto percentual na próxima reunião e vai somar 2,75 pontos ao longo de toda a série. Ao fim desse movimento, na reunião de julho, a Selic estará em 11,5% ao ano — disse Ilan Goldfajn.

Os que acreditam que o aperto virá mais à frente argumentam que a economia vai desacelerar naturalmente do nível anualizado que mostrou no quarto trimestre, de 8%. Esse ritmo não se sustentaria, porque foram retirados os estímulos econômicos de combate à crise, e o comércio mundial continuará fraco e servirá de freio ao crescimento do país. Além disso, a inflação deste começo de ano foi influenciada por fatores sazonais, como ônibus e escolas, que não vão afetar os outros meses.

A Tendências Consultoria acha que os juros não sobem agora em março, mas que em abril começa o ciclo de alta, que vai elevar em 2,5 ponto percentual os juros.

— O crescimento do quarto trimestre do ano passado foi pautado pela reocupação da capacidade ociosa, dos incentivos ao consumo. Isso não vai se repetir ao longo do ano. Além disso, o mercado externo não se recuperou totalmente — explicou o economista Bernardo Wijuniski.

Eu acho bem provável que o Banco Central aumente, mas apenas 0,25%, dando um sinal de que é o início de um ciclo de aperto monetário. Se esse ciclo ocorrerá e será longo, isso quem vai dizer é a queda de braço entre a política e a economia. Se o BC quiser subir juros, é preferível subir logo porque a campanha ainda não esquentou. Depois virá a Copa, em que o Brasil pouco se importará com juros. Se as taxas subirem agora, em setembro e outubro é que elas estarão derrubando a inflação. Será uma forma de atender, sem parecer que está atendendo, ao calendário cívico.

(Original aqui.)

Comentário: É inegável que o Banco Central conseguiu, no governo Lula, ser relativamente independente em relação à esfera política, deixando claro que a condução econômica do país é uma, e a condução política é outra. Mas isso foi “fácil” quando o governo era um só — no sentido de que não havia preocupações com o fim do governo Lula. Neste ano será diferente: seja lá quem ganhe, o presidente não será mais Lula com seu carisma a sustentar a ideia de inflação baixa para a população. Há o perigo dos “desenvolvimentistas” ganharem espaço na condução da política econômica brasileira, e eu pessoalmente acho isso péssimo porque indica o retorno da inflação — é a ideia de que “é bom ter uma inflação um pouco mais alta, desde que o crescimento seja mais alto — , e eu discordo efusivamente disso. De todo jeito, minha esperança é a de que os aumentos nos juros comecem agora, evitando-se um repique da inflação no meio do ano — período de Copa do mundo no qual, como dito no texto, ninguém está nem aí para nada.

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