Atentados em Moscou — com comentários

(Original aqui.)

Obs.: comentários ao longo do texto, e também ao final.

Atentados de Moscou provocam reações no mundo

Após ataques em Moscou, Nova York e Washington reforçam segurança em metrôs. Polícia russa desativa uma terceira bomba não detonada. Líderes mundiais lamentam atentados. Putin promete “eliminar” responsáveis.

As autoras dos atentados desta segunda-feira (29/03) nas estações de metrô moscovitas agiram em lugares de forte peso simbólico. Uma das bombas explodiu pouco antes das 8h na estação Lubyanka, diretamente sob a sede do Serviço Federal de Segurança (FSB), agência de informação sucessora da KGB, durante a hora do rush, a poucos passos do Kremlin. E 45 minutos depois aconteceu uma segunda detonação na estação Park Kultury, perto do famoso Parque Gorky.

[Comentário: vale destacar que o local é realmente extremamente simbólico. A estação Lubyanka fica exatamente no centro da praça com o mesmo nome, no qual se localiza o prédio do FSB. Não sei se a estação ficou destruída — espero que não, pois esta é uma das estações mais simbólicas para mim. Já a estação Park Kultury é importante porque se localiza próximo ao rio Moscou e possui diversos pontos turísticos e oficiais por perto.]

Ao todo, quase 40 pessoas morreram no ataque duplo, que tanto o governo quanto populares revoltados atribuem a militantes separatistas do norte do Cáucaso. Mais de 70 ficaram feridas.

[Comentário: aqui surge um problema típico da Rússia atual: atribuir tudo aos “separatistas do norte do Cáucaso”. É claro que muitos dos atentados são realmente realizados pelos chechenos, mas há na Rússia atual xenofobia extrema em relação a todos aqueles que não são “brancos do olho azul”. É uma pena que um país tão belo se deixe levar por sentimento tão desprezível.]

Polícia procura duas suspeitas

Duas mulheres teriam, segundo informações da promotoria pública, detonado explosivos em seus próprios corpos nos vagões do metrô, pouco depois da abertura das portas dos trens. Gravações de câmeras de segurança mostrariam as suspeitas, acompanhadas de duas outras mulheres, que estão sendo procuradas pelos serviços de segurança.

[Comentário: mais um problema da Rússia atual: o controle de informações. É claro que parte-se do princípio que o estado é uma instituição confiável, e o “cidadão comum” legitima as ações do estado com base nas informações que o próprio estado lhe dá. Mas quando se fala de Rússia, a situação é mais complicada devido ao intenso controle midiático que é realizado pelo governo daquele país — basta lembrar os casos relativamente recentes de jornalistas “independentes” que foram assassinados nas ruas de Moscou.]

Nenhuma organização assumiu de imediato a autoria dos atentados. O FSB atribui os ataques a grupos militantes do norte do Cáucaso.

As forças de segurança descobriram no decorrer do dia mais cargas explosivas não detonadas em uma das estações afetadas. Na estação Park Kultury, foi encontrado e desativado um cinto de explosivos não detonados, segundo a agência estatal de notícias Ria Novosti, que cita informações de investigadores. Na estação, foi também encontrada a cabeça e outras partes do corpo de uma das suicidas, com a idade entre 18 e 20 anos.

[Comentário: mais uma vez surge a dúvida: será que realmente houve mais uma carga de explosivos ou isso foi “armação” para colocar a culpa nos chechenos? Infelizmente, não há como ter muita certeza quando se fala de “informações oficiais” na Rússia — é quase uma questão de fé crer (ou não) nas informações passadas pelo governo.]

Nova York e Washington aumentam policiamento

Como reação às explosões no metrô de Moscou, a segurança nos transportes coletivos de algumas das principais cidades dos Estados Unidos foram reforçadas. A polícia de Nova York anunciou nesta segunda-feira ter reforçado o policiamento nos metrôs da cidade, embora não tenha havido ameaças específicas, como ressaltou o porta-voz da polícia local.

As medidas são, segundo ele, meramente preventivas, em razão dos ataques de Moscou. O metrô de Washington, o mais utilizado do país, depois do metropolitano de Nova York, também reforçou sua segurança.

O presidente russo, Dimitri Medvedev, afirmou durante uma reunião de emergência que a Rússia realizará uma guerra contra o terrorismo “sem vacilações e até o fim”. Ele ordenou o fortalecimento das medidas de segurança nos transportes públicos. O trânsito das linhas atingidas foi paralisado. O primeiro-ministro, Vladimir Putin, afirmou que os mandantes dos atentados serão “presos e eliminados”.

[Comentário: não há outra coisa a se esperar dos líderes russos a não ser o recrudescimento do uso da força contra os caucasianos, especialmente chechenos. É o eterno jogo de “gato e rato” — que, ao contrário do que a maioria das pessoas acha, não começou com o fim da União Soviética. A região do Cáucaso traz problemas para a Rússia desde o século XVIII, quando tal região foi primeiramente conquistada pelo Império Russo. Ou seja, a solução para o conflito, infelizmente, ainda está longe de acabar.]

Merkel transmitiu “profundo pesar” a russos

A chanceler federal alemã, Angela Merkel, transmitiu ao presidente russo, Dimitri Medvedev, seu “profundo pesar pelos ataques” e expressou esperança de que os crimes possam ser rapidamente esclarecidos. “É chocante que tais ataques sejam possíveis no centro de Moscou”, disse a chefe de governo durante sua viagem à Turquia. O ministro alemão do Exterior, Guido Westerwelle, taxou os ataques de “abomináveis”.

O presidente norte-americano, Barack Obama, classificou os atentados como “atos terroristas violentos e abomináveis, que faltam com todo o respeito pela vida humana”. Ele afirmou que seu país é solidário com o povo russo “no repúdio a tais atos de violência”.

O metrô de Moscou é um dos mais movimentados do mundo, transportando, em média, cerca de sete milhões de pessoas nos dias úteis. Ele é um meio de transporte vital em uma cidade cronicamente afetada por engarrafamentos. Depois dos ataques, o tráfego da cidade ficou praticamente paralisado.

“Ouvi um estrondo, olhei ao redor, e tudo estava cheio de fumaça. As pessoas corriam gritando em direção à saída”, relatou Alexander Valukov, de 24 anos, que estava em um trem estacionado na direção oposta ao do veículo afetado.

Moscou teve em 2004 seu último ataque terrorista

O último caso confirmado de ataque terrorista em Moscou ocorreu em agosto de 2004, quando uma terrorista suicida se detonou em frente a uma estação de metrô, matando dez pessoas. Separatistas tchetchenos assumiram a autoria do atentado.

A polícia russa matou nos últimos tempos diversos líderes de militantes islâmicos no norte do Cáucaso. Na semana passada, as forças russas mataram durante um tiroteio o líder rebelde Anson Astemirov. As ações da polícia fazem surgir temores por represálias dos militantes.

Em fevereiro passado, o líder rebelde tchetcheno Doku Umarov ameaçou os russos, dizendo que “a zona de operações militares será ampliada ao território russo” e que “a guerra chegará às suas cidades”. Umarov também assumiu a autoria pelo atentado a bomba contra o trem Nevsky Express, entre Moscou e São Petersburgo, ocorrido em novembro, matando 26 pessoas.

Comentários finais: Infelizmente, a situação ainda é complicada na Rússia, pelo menos no que diz respeito à adequação das diferentes nacionalidades em seu território. A Rússia é um país multinacional, o que significa dizer que há vários grupos étnicos dentro do território do estado russo. Pior que isso é o fato de que algumas dessas nacionalidades — especialmente aquelas que se situam no norte do Cáucaso — não se dão muito bem entre si e não se dão muito bem com os russos. Há ainda a questão da religião — os russos étnicos são ortodoxos, enquanto que no sul do país a maioria é esmagadoramente muçulmana.

Nesse sentido, tenho dúvidas se uma abordagem fundamentada exclusivamente na violência resolverá o problema — acredito que não. Violência gera violência, e é inegável que esse ciclo perdurará enquanto o governo russo não tomar outro tipo de iniciativa para solucionar a questão. Talvez os líderes russos devessem ler um pouco mais Maquiavel, especialmente a parte da cooptação, para perceber que não adianta continuar dando “murro em ponta de faca” — pois os muçulmanos não aceitarão “simplesmente” a cultura russa, e vice-versa. Cabe à liderança russa perceber que os tempos de Ivan, o Terrível, já passaram — ainda que os métodos de Ivan estejam tão impregnados na mentalidade russa que sejam vistos como “fundamentais” pela grande maioria do povo russo.

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