Aproximação russo-polonesa (comentário ao final)

Especialistas apostam em aproximação russo-polonesa após morte de presidente

Cientistas políticos alemães apontam uma possível reconciliação entre Polônia e Rússia, em decorrência da tragédia que matou o presidente Lech Kaczynski e comitiva.

“Há uma chance de recomeço”, afirma Alexander Rahr, especialista em assuntos ligados à Rússia, da Sociedade Alemã para Política Externa, em Berlim. Fica evidente que as lideranças políticas russas perceberam, de imediato, o que essa tragédia significou para a Polônia, e usaram, a seguir, as palavras e os gestos certos para com o país.

De acordo com Rahr, tanto a Polônia quanto a Rússia são “muito guiadas pela emoção e muito conscientes de suas respectivas histórias”, o que faz com que em nem num país nem no outro as imagens e os gestos dos últimos dias venham a ser esquecidos rapidamente.

Também Kai Olaf Lang, do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e Segurança, em Berlim, acredita que a onda de solidariedade para com a Polônia, movida pela emoção em função da tragédia nacional, gera uma aproximação entre Varsóvia e Moscou.

“O que determina o alcance disso é o caráter humano, que ficou visível em um político como Vladimir Putin. Uma humanidade que até então se mantinha oculta para a Polônia”, diz Lang, ao lembrar as palavras do próprio Putin de que o acidente teria sido “nossa tragédia comum”.

Para o cientista político, outro sinal importante dessa reconciliação foi a televisão nacional russa mostrar o filme Katyn, de Andrzej Wajda, em horário nobre, um dia após a tragédia que vitimou o presidente.

Gestos de caráter simbólico

Lang lembra os gestos de caráter simbólico neste contexto, como o momento em que o premiê russo Putin abraçou seu colega polonês, enquanto Donald Tusk depositava uma coroa de flores no local da tragédia. O fato de Putin ter permanecido por tanto tempo em Smolensk, onde ocorreu o acidente, até que o caixão com o cadáver do presidente Lech Kaczynski fosse transportado para Varsóvia, também foi fortemente eloquente.

“Essa despedida do chefe de Estado polonês por Putin foi uma cerimônia simples, mas muito digna”, observa Lang. O cientista político acredita que esse tipo de imagem possa contribuir para minimizar o ceticismo, a desconfiança e o temor que os poloneses mantêm em relação à Rússia. “Pela primeira vez na história recente, surge um sentimento de ligação emocional e de uma empatia verdadeira entre esses dois povos eslavos”, completa Kai Olaf Lang.

Cornelius Ochmann, da Fundação Bertelsmann, fala do início de um “processo irrevogável”. Segundo ele, “as reações espontâneas e diretas da Rússia em relação à tragédia na Polônia foram tão profundas, que, em minha opinião, podem até levar a um processo irreversível de reconciliação entre os dois povos eslavos”.

Ochmann acentua que essa “irreversibilidade” não tem de forma alguma “apenas” uma dimensão bilateral. Ele lembra os comentários da imprensa russa de que “os russos deveriam estar agradecidos à Polônia e ao presidente Lech Kaczynski por terem sido lembrados da própria história através da tragédia na Polônia”.

O cientista político observa que muitos russos recordam-se de vários outros “Katyns” [massacre em que tropas russas mataram milhares de oficiais poloneses, numa floresta próxima à localidade de Katyn, em 1940] no próprio país, que ainda precisam ser esclarecidos. “O processo irreversível significa também uma nova interpretação do stalinismo na Rússia”, diz Ochmann, para quem os dois países deveriam, agora, aproveitar esse momento de aproximação.

O que vem depois?

Os cientistas políticos veem que essa reconciliação emocional traz muitas possibilidades, sem, contudo, eliminar os problemas reais existentes entre a Polônia e a Rússia. Kai Olaf Lang fala de “assuntos delicados”, como energia, o gasoduto no Báltico ou as parcerias com a Otan no Leste Europeu.

Mesmo que alguns desses temas, como por exemplo o empenho da Polônia pela integração da Ucrânia e da Geórgia na Otan, tenham perdido força nos últimos tempos, ou seja, até aplainado o conflito com a Rússia, isso não significa que os problemas entre os dois países tenham desaparecido. “Sou relativamente otimista”, confessa Lang, revelando que tem esperanças em “discussões construtivas”.

Ochmann, da Fundação Bertelsmann, também se autodefine como um otimista nessa questão, e acredita que as relações entre os dois países possam ser permeadas por um tom reconciliatório daqui em diante.

“É possível desperdiçar qualquer oportunidade quando não se encontra o tom certo. No entanto, até agora os dois lados têm usado o tom correto”, diz o especialista. Ochmann vê num aprimoramento das relações russo-polonesas também uma chance para a Europa: “Se esses países se aproximarem, isso significa também para a União Europeia uma melhor cooperação com Moscou. E isso todo mundo sabe”, diz ele.

Campo preparado

Alexander Rahr, da Sociedade Alemã para Política Externa, também aposta num bom desdobramento das relações entre Moscou e Varsóvia, sem, contudo, acreditar que a tragédia recente tenha sido a causa dessa aproximação. “O fato de que a Rússia tenha podido reagir nesse momento dramático já foi uma consequência da aproximação gradual entre os dois países ocorrida nos últimos meses”, diz Rahr.

O especialista se refere, neste caso, à participação de Vladimir Putin nas celebrações dos 70 anos de eclosão da Segunda Guerra Mundial, ocorridas no dia 1° de setembro do último ano, em Gdansk, bem como na cerimônia em memória dos 22 mil oficiais poloneses mortos em Katyn, para a qual Putin convidou o premiê polonês Tusk. Essa cerimônia aconteceu poucos dias antes do desastre aéreo que matou o presidente Lech Kaczynski e mais de 90 outros representantes poloneses.

O diálogo histórico entre a Polônia e a Rússia irá se perpetuar, aposta Alexander Rahr, ao lembrar que alguns dos problemas existentes entre os dois países já vêm se dissipando lentamente. Entre esses, aponta Rahr, está o novo contexto político na Ucrânia, cujo governo atual está, acima de tudo, “interessado em um acordo amistoso com a Rússia”.

“Isso impede os poloneses de manterem a Ucrânia como zona amortecedora entre o próprio país e a Rússia. E força a Polônia a repensar sua conduta”, observa Rahr. O problema dos mísseis norte-americanos na Polônia e a questão da independência energética também vêm se dissipando gradualmente, principalmente depois que a Polônia descobriu, há pouco, suas próprias e amplas reservas de gás”, explica o cientista político.

Apesar das dificuldades reais da política atual, o processo de reconciliação parece ganhar agora também uma chance real. É preciso aproveitar esse momento, acentuam os especialistas.

(Original aqui.)

Comentário:

A aproximação entre Rússia e Polônia é mais do que esperada: é necessária.

Há toda uma história de divergências e suspeitas de um país em relação ao outro: a Rússia quase foi conquistada pela Polônia no século XVII, e depois, no século XVIII, a Rússia, juntamente com Áustria, invadiu a Polônia e fez o país literalmente “sumir do mapa”. Posteriormente a Polônia ressurgiu, mas como parte do Império Russo. Já em meados do século XX, a Polônia — país então independente — foi invadida pela União Soviética, e ficou sob a área de influência da URSS durante praticamente toda a segunda metade do século XX.

Mesmo com tantas “idas e vindas” históricas entre os dois países, os mesmos carregam traços comuns: são dois países eslavos; falam línguas eslavas; tiveram sua origem como nação em momentos semelhantes; e na Europa de hoje, têm objetivos em comum.

É claro que apenas o falecimento do presidente polonês não será capaz de fazer com que rivais históricos, de uma hora para outra, se tornem “melhores amigos”. Mas tal incidente, infeliz como foi, pelo menos trouxe um fruto positivo, destacado no texto, que é a aproximação entre os dois países.

Sem dúvida, é necessária tal aproximação devido a diversos elementos políticos, econômicos e até mesmo culturais que, uma vez superados, levará a uma maior estabilidade na região, o que, sem dúvida, trará benefícios para russos, poloneses, europeus e para o mundo de maneira geral.

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