Contribuição ao anedotário eleitoral

Em visão bem-humorada da sucessão presidencial, colunista fala, entre outras coisas, de solidariedade mineira, do sonho de Aécio em presidir o Senado e do pouco talento de Dilma como piadista

“O mineiro só é solidário no câncer”, reza a tirada do pernamburoca, ou cariobucano, Nelson Falcão Rodrigues, que marotamente a atribuía ao mineiríssimo amigo Otto Lara Resende.

Professor conhecido meu, insuspeito, por ter nascido e crescido na região do Triângulo Mineiro, adora contar a historinha a seguir, que mais parece invenção de outro filho ilustre e saudoso das Gerais, o cartunista Henrique de Souza Filho, dito Henfil, criador do sádico personagem Fradinho. No início dos anos 60, quando o mercado brasileiro começou a ser invadido pela margarina vegetal, famílias expressivas daquela bacia leiteira passaram a consumir apenas Claybom.

Por quê? Ora, só pelo gostinho de ver o vizinho pecuarista quebrar. (Os alemães têm um nome chique para esse sentimento de regozijo com a desgraça alheia: schadenfreude.)

Anedotário à parte, desta vez o ex-governador Aécio Neves tem incentivos bem concretos para apoiar, ativa e concretamente, a candidatura oposicionista à Presidência da República. Na hipótese de levar até o fim sua pretensão ao Senado, que sonha presidir, ele sabe que precisará investir no efeito-arrastão de uma vitória serrista que lhe forneça maioria favorável na Câmara alta.

De outra parte, caso se materialize o cenário em que vários analistas ainda acreditam e muitos oposicionistas fervorosamente apostam – sua aceitação do papel de vice na chapa encabeçada por José Serra –, o empenho do mineiro pelo sucesso da aventura será ainda maior, sobretudo se, ao cultivo do seu ego montanhês, for acrescida a perspectiva de controle de generosas fatias da máquina federal.

A adesão plena de Aécio desequilibrará, a favor de Serra, a delicada equação geográfica do voto em 2010, juntando Minas (segundo maior colégio eleitoral do país) ao bloco sulista encabeçado por São Paulo (o primeiro) e vitaminado pelo agronegócio do Centro-Oeste, de modo a compensar a previsível ‘lavada’ que o queremismo lulista, corporificado na ‘noviça obediente’ do Planalto, Dilma Rousseff, certamente dará no subcontinente do Sarneystão (Norte e Nordeste).

Se o meu raciocínio estiver correto, a maioria dos cariocas e fluminenses deverá engrossar o cordão pró-Serra, no embalo da simpatia irradiada pelo mineirinho que há muito fez de Ipanema o seu segundo lar. Daí até esta outra piada.

Noite alta, o telefone toca no Palácio dos Bandeirantes, e Serra atende, logo ouvindo aquele sotaque familiar:

– Alô, Zé? Aqui é o Aecim…
– Tudo bem, meu! Onde você está?
– Em Belzonte, uai.
– Dio mio! Aconteceu alguma tragédia aí?

A nova constelação política dominante é definida pela convergência São Paulo/Minas Gerais, 80 anos depois do fim da política do café-com-leite da República Velha, sepultada pela Revolução de 30, e um quarto de século após o decisivo endosso paulista, sob a liderança do governador Franco Montoro, à candidatura do seu colega mineiro, Tancredo Neves, no Colégio Eleitoral, palco do desenlace do regime autoritário e do nascimento da Nova República.

Esse alinhamento tirou toda a graça do chiste recentemente tentado pela também mineira Dilma em visita ao seu solo natal, a bordo de mais uma das suas  incontáveis violações à lei que proíbe campanha fora de época. Recém-chegada ao humorismo político, ela exortou os seus conterrâneos a darem um voto-flex em outubro, consagrando a chapa Dilmasia, ou Anastadilma, numa alusão ao governador e pupilo sucessório de Aécio, Antonio Anastasia. Ninguém riu.

Aliás, tampouco no Ceará, berço de gênios populares da comédia como Chico Anysio e Tom Cavalcante, logrou ela angariar sorrisos de aprovação. Pudera: na maior sem-cerimônia, achou que era só chegar e armar seu coreto no estado onde o ex-deputado estadual, ex-prefeito de Fortaleza, ex-governador, ex-ministro da Fazenda e da Integração Nacional, o hoje amargurado deputado federal e recém-tratorado aspirante presidencial Ciro Gomes (PSB) foi protagonista político ao longo de três décadas e cinco partidos e ainda é popularíssimo. Ele anda tão ressentido que, para desmoralizar Dilma e Lula, chega a elogiar seu arquiinimigo Serra, considerando-o “mais preparado”. Criador e criatura começam a experimentar o desconforto que é ser alvo da artilharia verbal de Cyro, se é que já não pressentem até mesmo o risco, imagine-se!, de perder um estado crucial para a sua estratégia nordestina.

A oposição, energizada como nunca nos últimos oito anos, acredita cada vez mais na vitória com Serra e Aécio, torce pelas próximas gafes dilmescas e dá boas gargalhadas.

Schadenfreude.

Paulo Kramer é cientista político e professor do curso de especialização em Análise Política e Relações Institucionais da Universidade de Brasília (UnB).

(Original aqui.)

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