A politização da análise econômica

Características do comportamento do jornalismo político, especialmente em Brasilia:

1. Todos os atos de governo são relacionados com eleições. E

2. Todos os movimentos de partidos e políticos sempre precisam ter um cunho de conflito, ocupação de espaço político, maquiavelismo, estratégia. A política é quase sempre improvisada ao sabor dos acontecimentos. Mas trata-se de revestir toda decisão de estratégias profundas (quando o candidato está em alta).

Por exemplo, Dilma Rousseff tinha uma agenda de compromissos na Europa. Reuniões com chefes de Estado estrangeiros dependem da agenda deles., portanto precisam ser marcadas com antecedência Mesmo assim, as análises políticas diziam que foi uma grande jogada de marketing, porque ela viajou e conseguiu visibilidade na mídia para se contrapor à semana de propaganda gratuita de Serra.

Agora, essa história do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento). Poderia reproduzir uma dúzia de artigos meus (sem contar de outros) explicando a lógica dos investimentos. Primeiro, bota-se o bloco na rua, definindo recursos. Depois, identificam-se os problemas enquanto o processo vai caminhando. Falta de projetos aqui, problemas ambientais ali, empecilhos burocráticos acolá. Equacionados os problemas, o PAC entraria em vôo cruzeiro.

Tome-se a questão do saneamento básico – que, segundo matéria da Folha, teve aumento de liberação de 64,2% em relação ao primeiro semestre do ano passado. Há um ano trouxe aqui entrevistas com um Instituto bancado por empresas do setor, que avisava que havia uma defasagem  de seis a oito meses entre a decisão de investir (depois do projeto aprovado) e os resultados e que em 2010 o setor bombaria. Antes disso, estava-se na fase de construção dos projetos.

Vale para todos os demais setores. É impossível decidir investimentos em infra-estrutura no começo do ano, como pretende a Folha.

Essa conclusão é fantástica e serve para demonstrar minha tese:

No ano passado, o governo definiu que era estratégico acelerar os investimentos do PAC no ano eleitoral para fugir das críticas da oposição de que o programa patina desde seu lançamento.

Estala os dedos e manda: acelera, PAC. Se era simples assim, poderia ter estalado os dedos em 2009. Ou em 2008.

A reportagem acerta apenas quando conclui que os investimentos ainda são insuficientes.

Da Folha

Investimentos do governo batem recorde com Lula Em 12 meses, despesas atingem R$ 42 bilhões, o equivalente a 1,25% do PIB

Com exceção de 1994, eleições presidenciais ocorreram com taxas inferiores a 1% do que país consumiu e investiu

GUSTAVO PATU
VALDO CRUZ
DE BRASÍLIA

Ainda distantes das metas oficiais e das necessidades da produção nacional, os investimentos do governo Luiz Inácio Lula da Silva fecharam o primeiro semestre do ano no maior patamar desde o restabelecimento das eleições presidenciais no país.

Investimentos, diria um economista, são gastos destinados a ampliar a infraestrutura e a capacidade de gerar bens e serviços para empresários e consumidores. Pela ótica política, são obras e inaugurações em habitação, saneamento, rodovias, ferrovias, hospitais e escolas.

Dados ainda preliminares indicam que, ao longo dos últimos 12 meses, essas despesas, sem contar as das empresas estatais, somaram R$ 42 bilhões, ou 1,25% do Produto Interno Bruto, ou seja, de tudo o que o país consumiu e investiu no período.

As cinco eleições presidenciais anteriores foram disputadas com taxas de investimento inferiores a 1% do PIB, com exceção do pleito de 1994, em pleno lançamento do Plano Real -quando a troca da moeda e o fim repentino da hiperinflação distorceram as estatísticas.

DESDE O PAC

Os investimentos vinham em alta gradual desde o lançamento do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), concebido como prioridade do segundo mandato de Lula e bandeira de sua candidata, Dilma Rousseff.

O que explica o recorde, porém, é um salto repentino de quase 60% nos primeiros seis meses deste ano, na comparação com o primeiro semestre de 2009.

Abertura, ampliação e conservação de rodovias, obras de saneamento básico e de urbanização de favelas compõem a maior fatia das despesas, além de um contrato firmado em acordo militar com a França para a construção de quatro submarinos convencionais e um de propulsão nuclear. Um terço dos recursos é repassado a governadores e prefeitos.

Mesmo em somas inéditas desde a redemocratização do país, os investimentos federais ainda têm mais peso político que econômico. Tanto o governo como o país investem pouco para os padrões internacionais, e o PAC fracassou na meta de impulsionar a elevação do investimento nacional à casa de 25% do PIB -são 18% hoje.

Durante o “milagre econômico” da ditadura militar, obras a cargo dos cofres da União ficavam, na média, em 1,8% do PIB, taxa nunca mais repetida após a crise do endividamento externo, nos anos 80, que sepultou a era do crescimento econômico puxado pela ação do Estado.

Segundo diagnóstico quase consensual entre os analistas, o Brasil precisa elevar sua taxa de investimento para sustentar o atual crescimento acelerado. Do contrário, a produção não será suficiente para acompanhar o consumo, provocando alta da inflação e das importações -o que ocorre hoje.

Lula espera que o ritmo acelerado dos investimentos públicos nessa reta final de mandato contribua para eleger Dilma Rousseff.

Afinal, ela é, na definição do próprio presidente, a “mãe do PAC”, programa que não concluiu nem metade de suas obras, segundo seu último balanço.

No ano passado, o governo definiu que era estratégico acelerar os investimentos do PAC no ano eleitoral para fugir das críticas da oposição de que o programa patina desde seu lançamento. Além de dar mais sustentação ao crescimento da economia e gerar empregos em 2010, trunfos para a campanha eleitoral contra o candidato tucano José Serra.

CONTENÇÃO
Economista da consultoria Tendências, Felipe Salto avalia que essa estratégia está funcionando, neste início de ano, porque o governo decidiu conter os gastos em custeio para abrir mais as torneiras dos investimentos.
Em sua opinião, porém, esse ritmo não é sustentável, já que no segundo semestre o governo terá de bancar despesas que estão temporariamente bloqueadas. Isso deve levar a uma redução no ritmo de investimentos e a um aumento no de despesas de caráter permanente.
Segundo ele, os últimos dados já indicam isso. Enquanto em janeiro os investimentos cresceram quase 100% em relação ao mesmo mês de 2009, em maio esse crescimento caiu para 50%.
A equipe de Lula diz que o avanço no ritmo de investimentos não se deve ao período eleitoral. Segundo o ministro Paulo Bernardo (Planejamento), o governo em seu segundo mandato foi reaprendendo a investir e, agora, está colhendo os frutos desse trabalho.
“O Estado ficou quase 20 anos praticamente sem investir. Tudo era voltado para o controle. Mudamos essa lógica”, diz Paulo Bernardo.

(Original aqui.)

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