Quinze anos depois do massacre de Srebrenica, muitas questões permanecem em aberto

O massacre da população masculina muçulmana desta cidade na Bósnia-Herzegóvina em 1995 é considerado o pior caso de genocídio na Europa após a Segunda Guerra. Seu processo de esclarecimento está longe de ser encerrado.

Em 11 de julho de 1995, tropas sérvias marcharam sobre Srebrenica, cidade da Bósnia-Herzegóvina que fora declarada área de segurança pela Organização das Nações Unidas. Os soldados escolheram muçulmanos do sexo masculino, entre 12 e 80 anos de idade, e os chacinaram. O fato ocorreu com a anuência passiva dos capacetes azuis da ONU, sob cuja custódia se encontravam os cerca de 40 mil civis muçulmanos desarmados.

Nos últimos anos, no Vale do Drina (rio na fronteira sérvio-bósnia) foram exumados, de 275 valas comuns, os restos de 8.372 vítimas do massacre, das quais 6.557 foram identificadas. Porém estes números ainda não são definitivos, já que muitos civis muçulmanos ainda são tidos como desaparecidos.

Herança da Primeira Guerra

Mesmo 15 anos depois, ainda é difícil esclarecer o ocorrido de forma meticulosa e abrangente, afirma Manfred Eisele, major-brigadeiro do Exército alemão encarregado do planejamento das operações de paz da ONU entre 1994 e 1998.

Diversas nações agiam ativamente por trás dos bastidores, e seus diplomatas e generais implementavam as decisões dos diferentes governos na Iugoslávia em dissolução. Contudo, terminada a guerra, eles não puderam contribuir para os relatórios da ONU, por não ter permissão para prestar declarações, explica Eisele.

Segundo o militar alemão, o papel dos países europeus no conflito da antiga Iugoslávia e na guerra da Bósnia é fortemente determinado por fatores históricos. “As ocorrências de 1995 nos Bálcãs foram marcadas por posições que as nações [da Europa] já haviam adotado em 1914 [início da Primeira Guerra Mundial].”

Os grandes sabiam

Eisele duvida que os responsáveis pela operação de paz no Conselho de Segurança da ONU realmente tivessem a força e a intenção de proteger os 40 mil civis muçulmanos na área de Srebrenica.

Essa hipótese é confirmada por pesquisas do jornalista holandês Huub Jaspers. Estas mostram que, antes mesmo do massacre, as grandes nações no Conselho de Segurança já teriam tido informações sobre os planos sérvios de ataque.

“No fundo, o Conselho de Segurança é principal responsável pelo que aconteceu em Srebrenica. Os governos dos países que lá estavam receberam, de seus serviços de inteligência, informações sobre o que estava sendo preparado. Porém eles nada fizeram com essas informações, não impediram esse drama. Esta é uma das grandes questões que, ainda hoje, estão em jogo: por quê?”

Trauma

Hoje, o governo do país de Jaspers também é responsabilizado pelo genocídio de Srebrenica. Quando os encarregados na ONU propuseram um ataque aéreo contra as tropas sérvias, a Holanda interveio, temendo por seus 450 soldados mobilizados para a proteção do enclave bósnio. E assim a ONU não voou, o massacre aconteceu, e os capacetes azuis observaram tudo passivamente.

No momento, Axel Hagedorn, advogado de cerca de 8 mil familiares das vítimas, se empenha, diante tanto do Supremo tribunal holandês quanto da Corte Europeia de Justiça, para suspender a imunidade das Nações Unidas, que, em sua opinião, deveriam ter passado por cima do bloqueio dos holandeses.

“Se a ONU tiver que comparecer diante da Justiça, então não será mais possível o Estado holandês colocar a culpa na ONU, e esta no Estado holandês, como é o caso no momento. A promessa quebrada permanece sendo o grande trauma, enquanto a ONU nem mesmo se desculpar – ou a Holanda. É simplesmente assustador que não se consiga nem a menos pronunciar uma desculpa.”

Para os soldados holandeses, aquela operação também se tornou traumática, afirma o jornalista Jaspers. Ao serem enviados, eles estavam totalmente mal preparados e mal armados, e com indicações equivocadas sobre sua missão. Muitos deles são agora doentes, cometeram suicídio ou se encontram na prisão por terem assassinado alguém.

Responsabilidade de proteção

Apenas um ano após o massacre de Srebrenica, foi a vez o genocídio em Ruanda. Vinte anos antes iniciara-se o regime de terror do Khmer Vermelho no Camboja, que fez milhões de mortos. São datas históricas que testemunham o fracasso da ONU. Porém esta pouco aprendeu com essas lições, critica Eisele.

“É dramaticamente subdesenvolvida a disposição dos Estados de assumir a responsabilidade pelas minorias oprimidas, e de perceber essa responsabilidade como um dever de proteção.”

Srebrenica e suas cercanias estão “etnicamente limpas”. Na própria cidade só vivem, hoje, de 3% a 5% de muçulmanos, a maioria, mulheres à procura de seus parentes. Grande parte das famílias partiu para o exílio, para o Canadá, a Nova Zelândia e os Estados Unidos. Ratko Mladić, o general das tropas sérvias que executaram o massacre, refugiou-se e está até hoje em liberdade.

Srebrenica hoje

No entanto, Marieluise Beck, presidente do Grupo Parlamentar Teuto-Bósnio do Bundesrat (câmara alta do Parlamento alemão), nota vários passos positivos na direção da democratização e de uma reconciliação na Bósnia-Herzegóvina. Para tal, o Tribunal Penal Internacional (TPI) para a ex- Iugoslávia também contribuiu, afirma.

“Houve uma resolução muito abrangente do TPI, onde os acontecimentos em Srebrenica foram citados bem claramente. Houve numerosas condenações e, até onde sei, Belgrado entregou 44 de 47 pessoas solicitadas.”

Nesse ínterim, a busca pelas vítimas se arrasta. Os cadáveres foram atirados em valas comuns e, para apagar as evidências, foram mais tarde desenterrados com tratores de lâmina e transportados para um segundo ou terceiro local. Em 11 de julho de 2010, mais 731 vítimas identificadas serão sepultadas em Potočari, lugarejo no leste da Bósnia-Herzegóvina.

(Original aqui.)

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