O movimento dos votos

De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

As pesquisas disponíveis permitem identificar com razoável clareza para onde vão, agora no segundo turno, os votos dados no primeiro. Não são movimentos concluídos e novas mudanças são possíveis nos próximos dias. Mas tudo indica que os segmentos do eleitorado ainda indecisos estão diminuindo rapidamente.

O dado mais relevante é que temos, nestas eleições, a repetição de um fenômeno conhecido: a tendência da maioria dos eleitores a confirmar o voto do primeiro turno. Ao contrário do que se costuma pensar, o segundo turno só é “outra eleição” para quem não votou nos candidatos que o disputam.

É o que está acontecendo agora. Para a quase totalidade dos eleitores que votou em Dilma ou Serra, a escolha já foi feita e será agora reiterada. Quem tem que rever sua decisão e escolher um caminho são os que votaram em Marina, nos demais candidatos, anularam o voto, o deixaram em branco ou não foram votar.

A forte tendência à confirmação vem de algo que o eleitor respeita e preza: sua própria coerência. Se chegou, depois de levar em conta inúmeras considerações, à conclusão de que Dilma ou Serra são os melhores, só uma decepção muito grave o levaria a mudar de ideia. Até mesmo porque, ao optar por Serra, por exemplo, o eleitor passa a olhar para Dilma, a principal concorrente de seu escolhido, com reserva. Vice-versa, a mesma coisa. Para que largue quem preferia e passe a votar em quem rejeitava, o caminho é complicado.

Em função disso, não surpreendentemente, perto de 95% dos que votaram em Dilma ou em Serra pensam repetir seu voto domingo, pelo que dizem as pesquisas. Ambos começaram o segundo turno com essa base e a estão preservando.

Existe, como se vê, mesmo que pequena, uma perda de votos, da ordem de 3 a 4%, mas ela é igual para os dois. Ou seja: há uma transferência de Dilma para Serra, mas há outra, proporcionalmente igual, dele para ela. Com isso, as duas quase se anulam.

Algo parecido acontece com quem votou nulo, branco ou se absteve. Quem preferiu votar desse modo tem o costume de manter a decisão no segundo turno, assim como tendem a continuar ausentes os que não quiseram comparecer no primeiro.

O que sempre reduz a quantidade de votos não-válidos no segundo turno é a simplificação da mecânica do voto. No primeiro, com 6 votos para digitar, muitos eleitores se confundem e acabam anulando seu voto inadvertidamente, enquanto outros votam branco por ser mais fácil que registrar tantos números. Inversamente, o que faz com que a abstenção tenda a subir de um turno para outro é a sensação do “dever cumprido” de alguns eleitores, ou o simples esquecimento da obrigação, no momento em que as campanhas locais (especialmente de candidatos a deputado) não mobilizam mais. De nenhuma dessas tendências, no entanto, costumam surgir mudanças relevantes no voto.

Como a votação dos chamados nanicos foi inexpressiva, o que interessa de fato são, portanto, os movimentos das pessoas que votaram em Marina. São seus deslocamentos que fazem com que as pesquisas estejam variando neste momento.

Para discuti-los, é preciso lembrar que o voto em Marina teve três momentos bem distintos de formação, pelo que mostram pesquisas quantitativas e qualitativas. O primeiro a levou a perto de 10% e tinha como núcleo o eleitor simpático à agenda verde. Com esse tamanho, Marina chegou a meados de setembro.

Nos 15 dias finais, ela recebeu um segundo afluxo de votos, vindo de eleitores que permaneciam indecisos, mas propensos a votar nela ou em Dilma. Ao agregá-los, Marina foi a 15%.

Todas as pesquisas mostram que houve um terceiro momento, nas vésperas da eleição, que fez com que ela chegasse aos 20% , decretou o segundo turno e que não foi captado pelas pesquisas (pois se concretizou em cima da hora). Seu combustível foi, ao que parece, a rejeição a Dilma.

Hoje, esse voto está com Serra. Mas não a totalidade do “verde” ou daquele segundo, que foi para a Marina desassociado de uma rejeição a Dilma. Os dois tendem a se repartir, ainda que majoritariamente para o candidato do PSDB.

Fazendo as contas: se praticamente todo o voto que Dilma e Serra receberam está mantido, se as flutuações entre eles se compensam, se nenhum dos dois tem a ganhar com alterações nos brancos e nulos ou mudanças nas abstenções, Serra precisaria receber quase integralmente o voto de Marina para equilibrar a disputa.

Até o momento, não é isso que se vê.

(Original aqui.)

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