A falácia do “fim das ideologias”

Devorar revistas semanais faz parte de um ritual de viagem. Desta vez não foi diferente. Uma olhada na banca de revista mostra que o circo midiático continua em alta. Exemplo: a capa da Época do dia 4 de abril de 2011 estampa em letras garrafais um “Exclusivo – Mensalão: Época revela todas as provas da polícia sobre o maior escândalo do governo Lula”. Mas, ao folhear a revista, não foi a longa reportagem sensacionalista que chamou atenção. Na página 37, na seção “Dois pontos”, uma frase curta, seguida do nome do autor e o posterior comentário da revista surpreende:

“O PSD não será de direita, não será de esquerda nem de centro, Gilberto Kassab, fundador do PSD, o partido lagartixa que não tem vértebra ideológica.”

Há algo fora do lugar. Seria possível um partido político não ter “vértebra ideológica?” Esse discurso está afinado com uma corrente de pensadores, políticos, dirigentes partidários, setores da imprensa, enfim, que apregoa o chamado “fim das ideologias”. No entanto, no cerne dessa questão está o discurso de que a esquerda faliu junto com a derrocada do socialismo real, marcada pelo desmembramento da União Soviética e a queda do Muro de Berlim. Um dos trabalhos mais consistentes sobre o tema é o livro de Norberto Bobbio, Direita e Esquerda: Razões e Significados de uma Distinção Política (2001).

Disseminando “verdades”

Para Bobbio, quando se defende que é nebuloso fazer distinção entre direita e esquerda, há no bojo dessa afirmação a chamada “crise das ideologias”. Mas, “as ideologias não deixaram de existir e estão, ao contrário, mais vivas do que nunca”, escreveu o autor. Para ele, “a árvore das ideologias está sempre verde. Além do mais, como já foi diversas vezes demonstrado, não há nada mais ideológico do que a afirmação de que as ideologias estão em crise”. De acordo com essa tese, “a crise do sistema soviético teria tido como consequência, neste caso, não o fim da esquerda, mas de uma esquerda historicamente bem delimitada no tempo. Desta constatação derivaria uma outra consequência sobre a qual o debate está mais do que nunca aberto: não existe uma única esquerda, mas muitas esquerdas, assim como, de resto, muitas direitas” (BOBBIO, 2001).

Nada mais ideológico do que Kassab afirmar que o seu “novo” partido “não será de direita, não será de esquerda nem de centro”. Nada mais ideológico do que a Época referendar esse discurso chamando o PSD de “partido lagartixa, que não tem vértebra ideológica”. Interessa aos partidos de direita e à mídia (que se diz objetiva, imparcial e apartidária) disseminar essa “verdade” de que é possível um partido não ter cor ou bandeira ideológica. É mais simplista do que formular teses sobre qual projeto o partido tem para o país ou, no caso da revista, buscar o caminho da reflexão sobre o cenário político-partidário do Brasil, que, certamente, não iria vender tanto quanto o suposto mensalão na capa.

Direita e esquerda

Essa discussão pode alcançar camadas mais densas. O discurso do apagamento da direita presume o apagamento da esquerda. Ora, “esquerda e direita indicam programas contrapostos com relação a diversos problemas cuja solução pertence habitualmente à ação política, contrastes não só de ideias, mas também de interesses e de valorizações a respeito da direção a ser seguida pela sociedade, contrastes que existem em toda sociedade e que não vejo como possam simplesmente desaparecer” (BOBBIO, 2001). Para o autor, há uma tendência natural das pessoas ou grupos em se alinhar quando existem dois lados em luta. “O alinhar-se preenche a necessidade de identificação, a formação de um `nós´: nós de direita, vocês de esquerda, ou vice-versa.” Trocando em miúdos: se não houvesse direita, qual o sentido da esquerda existir?

Os partidos políticos orbitam em realidades dinâmicas e a sua práxis envolve um elemento que está no âmago da sua razão de ser: o poder. A ideia de poder é como algo intangível, que muitas vezes permeia interesses temporais e atemporais, ideologias, instituições, estrutura material e financeira, vaidades, enfim, há que se olhar os partidos dentro desse universo. E, nesse universo, não cabe a ideia de “fim das ideologias”. Pressupõe-se, então, que há, sim, uma direita e uma esquerda no jogo político. Talvez o que esteja em crise é assumir esses discursos. Delimitar um campo de atuação. Melhor parecer invertebrado e transitar por todas as esferas de poder. E, certamente, tirar muitas vantagens disso.

(Original aqui.)

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