Fusão, prós e contras

O PSD do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, é ao mesmo tempo o motivo para acelerar as conversas sobre a fusão do DEM com o PPS e o PSDB e razão para adiar uma possível decisão. A aconselhar a pressa há a cada vez maior sangria do Democratas, que teria seu ápice com a provável saída de um de seus dois governadores, Raimundo Colombo, de Santa Catarina, que seria seguido pelo clã Bornhausen.

A cautela advogada pelo grupo de líderes remanescentes do DEM tem como razão principal não dar aos trânsfugas do PSD uma base jurídica para justificar a mudança de legenda sem as dificuldades burocráticas da criação de um novo partido.

Fora o fato de que uma possível fusão demandaria tempo para composições regionais delicadas. A fusão do PL com o Prona, dois partidos pequenos e nos quais não havia disputas regionais, demorou seis meses.

Para que a fusão possa vir a acontecer, é preciso que tanto o Democratas quanto o PSDB alcancem um consenso sobre a tese. O assunto está em cogitação, mas não está na ordem do dia, na definição do presidente do DEM, senador Agripino Maia.

Como a fusão de partidos autoriza a mudança de legenda, Maia considera que o passo estaria dando chance a que os que querem sair dos partidos em que atuam se abriguem em pequenos partidos que depois o PSD “adquiriria”, queimando as etapas difíceis que eles terão pela frente, como conseguir as 500 mil assinaturas em vários estados que precisam apresentar para criar o novo partido.

Mas talvez não haja tanto tempo assim, já que o governador de Santa Catarina tem pressa para uma definição. Ele ainda não anunciou formalmente sua saída do DEM, mas já trata do assunto.

Esteve, em companhia do ex-senador Jorge Bornhausen, conversando com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sobre seus próximos movimentos.

O governador colocou o desejo de continuar com um partido de oposição, mas que tivesse uma nova configuração, que tivesse futuro.

Bornhausen diz que não participará de fundação de partido algum, mas dará seu apoio ao governador Colombo, e seu filho, o deputado federal Paulo Bornhausen, já declarou que seguirá a liderança de Colombo, que, segundo relatou a Fernando Henrique, busca ter um discurso de futuro para seu eleitorado e acredita que, fundando um novo partido, haverá uma nova disposição.

A ideia preferencial era fazer o novo com a fusão com o PSDB e o PPS, mas há resistências no DEM e também no PSDB, onde a crise tem reflexos, com a debandada do grupo político que segue o prefeito Kassab, que ganhou contornos políticos mais fortes com a saída do secretário Walter Feldman, um dos fundadores do PSDB em São Paulo.

Na avaliação de Jorge Bornhausen, houve má administração da crise política, o grupo do governador Geraldo Alckmin impôs soluções em São Paulo ainda como rescaldo da eleição para prefeito em que Kassab o derrotou.

A crise no governo paulista abriu espaço para o DEM. O senador Agripino Maia, presidente do partido, vai hoje a São Paulo acompanhado do ex-senador Marco Maciel e de Alexandre Morais, advogado constitucionalista que será o presidente municipal do DEM, conversar com o governador Geraldo Alckmin para fechar um acordo: o deputado federal Rodrigo Garcia será o secretário de Desenvolvimento Social.

Os argumentos a favor da fusão dos partidos de oposição são fortes: nasceria um partido com seis minutos de propaganda eleitoral na televisão, que não dependeria de coligações, e haveria um fundo partidário da ordem de R$ 60 milhões que daria um rendimento mensal para poder fazer aquele exercício permanente de política sugerido pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em seu polêmico artigo “O papel da oposição” na revista “Interesse Nacional”.

Os que são a favor da fusão acusam os atuais dirigentes dos três partidos de não terem uma visão nacional da questão, permanecendo em suas disputas regionais, sem querer ou poder conviver com seus adversários nos estados: na Bahia, Jutahy Junior, do PSDB, não aceita conviver na mesma sigla com ACM Neto; no Rio, o deputado federal Arolde de Oliveira saiu do DEM e foi para o PSD porque não chegou a acordo com os Maia, o ex-prefeito Cesar Maia e seu filho, o deputado federal Rodrigo Maia.

Até o ex-governador José Serra disse que não poderia conviver no mesmo partido com os Maia, após as crises que protagonizaram na campanha presidencial passada.

Enquanto a direção nacional do DEM faz questão de identificar o futuro PSD como um partido adesista, que vai reforçar a base política do governo, os políticos que estão deixando diversas siglas para formá-lo tratam de marcar uma distância do governismo puro e simples, afirmando que não terão cargos na administração federal.

Mas admitem que o PSD vai apoiar em 2014 quem puder dar a ele uma perspectiva de longo prazo em 2018.

A obstinação e a perseverança do prefeito Gilberto Kassab o colocaram como uma figura política nacional, mas os seus antigos companheiros do DEM preveem que neste primeiro momento ele e os que o acompanharam vão enfrentar imensas dificuldades para registrar o partido.

São muitas as questões burocráticas que terão que ser superadas, e até já existe um PSD registrado. Além do questionamento no Supremo sobre a legalidade de os políticos levarem seus mandatos para o novo partido.

Na visão do senador Agripino Maia, a nova sigla será governista e poderá sofrer o desgaste dos problemas que virão.

Maia prevê que a inflação vai recrudescer, tanto por problemas internos de falta de controle do gasto público quanto por questões internacionais que já afetam a Índia e a China.

Para ele, a luta agora da oposição é de preservação de tamanho, apostando que terá seu momento.

O curioso é que, tanto para os que permaneceram no DEM quanto para os que estão saindo para formar o PSD, o artigo do ex-presidente Fernando Henrique é considerado um roteiro a ser seguido, uma bússola de raríssima qualidade, um manual a ser consultado.

O que pode indicar que, a médio prazo, estarão todos juntos novamente, desde que consigam superar suas idiossincrasias.

(Original aqui.)

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