Fazer o necessário ou fazer o correto?

Imagine-se em uma situação hipotética na qual você esteja a ponto de perder sua vida pela ação de outra pessoa. Imagine-se que você tem a possibilidade de escapar da sua própria morte, mas para isso você precisaria matar aquele que quer te matar. Ou ainda, imagine que algum familiar muito próximo (se possível imagine seu pai/mãe ou seus filhos) e que eles se encontram em situação de vida ou morte, e quem você tem a possibilidade de acabar literal e definitivamente com esta ameaça. Repito a hipótese: nas duas situações, a única forma de salvar sua vida e/ou de seu ente querido é matando o agressor. Não há meio termo: ou você/seus familiares morre, ou o agressor morre. O que você faria?

Tenho a tendência a acreditar que a maioria das pessoas escolheria matar o agressor. Motivos podem ser inúmeros: “melhor ele morto do que eu”, “ele é o agressor e eu sou a vítima”, “ele estava errado e eu certo”, “faço qualquer coisa melhos meus filhos”, e por aí vai. O motivo aqui não importa: o fato que quero destacar é que a probabilidade do agredido matar o agressor é, a meu ver, muito maior do que a probabilidade de se deixar o agressor vivo. Em outras palavras, acho que a maioria faria o que acreditaria ser necessário – matar o agressor para se livrar (ou ao seu parente) da situação de ameaça – e não faria aquilo que, do ponto de vista moral, seria o certo – não matar o próximo.

Tomo aqui a liberdade de afirmar que esta ideia – fazemos o necessário e não o moralmente correto – talvez perpasse todas, ou ao menos muitas das atividades diárias de todos nós. Claro que faço uma generalização, e logicamente, como ocorre com todas elas, haverá situações de exceção, nas quais agiremos conforme aquilo que consideramos ser o correto. Haverá aquelas situação em que fazer o necessário é exatamente fazer o correto. Mas creio também ser inegável que muitas vezes nos deparamos com esta situação conflituosa – o necessário versos o correto -, sendo que o primeiro acaba se sobressaindo frente ao segundo.

Max Weber, sociólogo alemão, intitulou estes dois comportamentos como ética da convicção e ética da responsabilidade. A ética da convicção é aquela na qual o indivíduo que age o faz porque tem a convicção de que está agindo de maneira correta – se está mesmo ou não é outra história. Nesse sentido, age pela ética da convicção aquele que toma decisões baseadas em seus preceitos morais subjetivos próprios que, em seu ponto de vista, são os corretos. Importante aqui destacar que se algo dá errado, a “culpa” não é sua, já que partiu de princípios corretos. Já a ética da responsabilidade se relaciona à ideia de que o indivíduo é responsável por aquilo que faz – ou seja, não adianta tomar uma decisão com fundamentação moralmente correta/boa e, se der errado, dizer “deu errado não por minha causa, já que meus princípios são corretos”. Pela ética da responsabilidade, como sua própria definição deixa claro, o indivíduo é responsável muito mais pelas consequências de seus atos do que pelos motivos que o levaram a decidir assim ou assado, sendo o indivíduo, portanto, responsável pelas consequências de suas decisões. Neste caso, talvez seja possível dizer que o indivíduo toma suas decisões conforme a necessidade, enquanto que pela ética da convicção ele toma as decisões pelo que é correto fazer.

O objetivo deste texto, contudo, não é falar sobre o que é correto ou sobre o que é necessário. também não é por objetivo explicar o pensamento de Weber. O objetivo destas breves ideias é o de mostrar o pano de fundo para o correto entendimento de outro autor, que creio ser muito mais conhecido que Weber: este autor é Maquiavel, conhecido pelo que escreveu em um de seus (vários) livros intitulado O príncipe.

Neste livro Maquiavel fala, dentre outros temas, de como o governante deve tomar decisões – se fundamentado naquilo que é o correto a ser feito ou se fundamentado naquilo que é o necessário a ser feito. Esta dicotomia foi originalmente deturpada a ponto de hoje existir o adjetivo maquiavélico, definido pelo Dicionário Priberam como algo em que predomina a astúcia, a má-fé e o oportunismo, algo pérfido, ardiloso, velhaco. Resumidamente, maquiavélica é a pessoa que passa a perna nos outros, que planeja para fazer o mal ao próximo.

Tais ideias, contudo, não podem ser atribuídas ao próprio Maquiavel. A começar pela famosa frase pretensamente existente em seu texto: “os fins justificam os meios”, Frase esta que não se encontra presente em nenhuma das páginas de seu livro. Nesse sentido, a ideia do livro trata do que foi aqui apresentado no início: um governante deve agir conforme aquilo que é o correto a ser feito, ou conforme aquilo que é necessário? E o objetivo é um único: a manutenção do poder político, situação que, nas condições da época de Maquiavel (séculos XV e XVI) era completamente daquela vivenciada na atualidade.

Para desfazer este e outros mitos no que concerne ao pensamento de Maquiavel, fiz um vídeo falando a respeito daquilo que está presente exclusivamente em seu livro O príncipe. Destaquei a palavra exclusivamente porque o pensamento de Maquiavel vai muito além deste livro. Pela sua leitura única e exclusiva poder-se-ia mesmo acreditar que Maquiavel era um homem ardiloso que só queria tirar proveito de tudo, sem nenhum tipo de preocupação moral. Nada mais longe da realidade, especialmente porque é possível afirmar que, como um todo, o pensamento de Maquiavel seria análogo àquilo que hoje consideramos como uma pessoa democrata.

Além do vídeo, publiquei uma edição do livro O príncipe na iBooks Store, que pode ser baixada neste link (apenas para iPad, iPhone, iPod Touch e Mac), com breves comentários meus ao final. Deem uma lida no livro, pois vale a pena. Mas quando o fizerem, lembrem-se: Maquiavel não propugnava “a má-fé e o oportunismo”, o ser “pérfido, ardiloso, velhaco”: o que ele defendia nada mais era do que a ideia de que muitas vezes somos compelidos a fazer o que é necessário em detrimento daquilo que é o correto. E ele disse isso em uma época em que a Igreja dominava política, social, jurídica e principalmente culturalmente, o que fez com que o autor ganhasse a pecha de “maquiavélico”, mesmo sem o ser.

0 thoughts on “Fazer o necessário ou fazer o correto?

  1. Professor boa noite, desculpe, houve problemas na rede, lendo o texto ja no seu inicio, e depois chegando se ao final do mesmo,enxerguei claramente o problema sionista.Israel e criticada pelo mundo todo,pelas suas atitudes crueis, mas infelizmente ou felizmente,sei la,pelo ponto de vista de Maquiavel, ela faz o certo, visto que desde de o tempo de Maome(Profeta), esse ja havia feito acordo com tribos e depois nao cumpriu,exterminando os mesmos(Raposa),depois em Oslo,assinou novo acordo com os Palestinos,entregando ate armas para os mesmos, em nome da paz.O que fez Arafat??(Nao cumpriu o acordo),(raposa), agora o mundo ve os judeus como genocidas e os Palestinos como pobrezinhos.Os judeus para sobreviverem no oriente medio,tera que fazer aquilo que Maquiavel pregava,ou seja,ou se mata ou morre.Deveria se pensar em paz, mas nao ha,deveria haver flores, mas as vezes,precisa de carros de combate.

  2. Ao meu ver todos somos inclinado a fazer o que é necessário. Até porque a necessidade sempre acaba sobressaindo em relação aos outros valores assim digamos. Exemplos bem simples disso, cito: em um transporte público, por exemplo, temos cadeiras preferenciais, porém geralmente não respeitamos esses assentos, dizemos “Eu também paguei a passagem” ou “Eu estou tão cansado, trabalhei o dia inteiro, tenho direito de sentar-me aqui..”, uma vez que o correto seria deixar os assentos para que as devidas pessoas possam usar. Enfim, acredito que a necessidade sempre terá forma maior em relação ao correto. (Não sei se compreendi bem, era mais ou menos isso?)
    Parabéns pelo Blog Prof. Matheus 🙂

    • Caro Jhonata, a ideia era essa mesma. Seu exemplo do ônibus, especialmente no fato de estar cansado, serve bem para ilustrar o ponto central desta postagem: Maquiavel estava falando sobre fazer o necessário. Se gostamos ou não é outra história. Claro que ele, ao menos no livro O príncipe, não pensou muito naquilo que hoje consideramos como consequências – seu exemplo de Israel v. Palestina é bem claro nisso também. Mas ele vivia em outra época, então talvez seja possível relevar isso. Fato é que seu pensamento está claramente presente não apenas na esfera política atual, mas também na vida pessoal de todos, ainda que muitas vezes não gostemos (nem queiramos) assumir isso! Se possível assine meu canal no Youtube e compartilhe o vídeo. Um abraço e volte sempre.

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