Afinal, o que é democracia?

Vamos falar de democracia?

Aqueles que acompanham o blog há mais tempo, bem como aqueles que me conhecem pessoalmente, sabem que tenho um apreço muito grande por este tema – democracia. Já tive a oportunidade de falar em outros momentos, aqui mesmo no blog, e em outros espaços, a respeito de democracia. Mas, feliz ou infelizmente, não há como visualizar algumas coisas que ocorrem neste momento eleitoral e não voltar a falar sobre esse assunto.

Contudo, não irei aqui falar da democracia em sua vertente formal, qual seja, aquela que está lá no caput do art. 1º da Constituição Federal, que diz que o Brasil é um “estado democrático de direito”. Não irei me referir à famosa frase do § único desse mesmo art. 1º, qual seja, que “todo o poder emana do povo”. Nem tocarei no art. 14, que afirma que a “soberania popular é exercida por meio do voto”. Também não falarei aqui da outra vertente democrática, a social, por meio da qual se pode questionar se um país realmente é democrático por meio da análise socioeconômica da sociedade – em outras palavras, quanto mais desigualdade econômica, menos democrática é determinada sociedade.

Não. Meu foco aqui não é necessariamente acadêmico, mas sim pessoal, criado com base em uma percepção que venho tendo há certo tempo e que parece-me confirmada neste período: quero tratar aqui do grau de democraticidade do cidadão brasileiro.

Isso mesmo. Não quero debater aqui se o Brasil é ou não democrático: quero debater se você, que lê este texto, é uma pessoa democrática.

Claro que a tendência natural de todos nós é a de dizer que somos democráticos – afinal de contas, assumir o contrário é assumir que temos um “ponto negativo” em nosso caráter, já que todos aprendemos que “a democracia é boa e a ditadura é ruim”. Qual a melhor forma de dar cabo a uma discussão interminável? Acusar o outro de ditatorial ou autoritário. É automático e não dá trabalho algum. O pai não deixa o filho sair porque é autoritário. O professor se mantém firme no que fala porque é ditatorial. Se meu desejo não foi atendido, é porque o outro, que poderia atendê-lo, se impôs sobre minha vontade. Ou seja, é só dizer isso – o outro é autoritário e/ou ditatorial – que tudo está resolvido.

Mas será que nós somos mesmo democráticos? Respondendo à pergunta, a minha percepção é a de que não, não somos democráticos. Como estou deixando bem claro, é uma percepção, ou seja, algo que não pretendo comprovar aqui cientificamente, mas me parece que esta é a realidade do cidadão brasileiro de maneira geral.

Vislumbro isso a partir do facebook. Claro que muitos dirão que o facebook não tem nada de científico, etc. e tal, mas acho que por ali dá para se tirar uma ideia geral porque muitas vezes as pessoas, ingenuamente (ou não), acham que não terá nenhuma consequência compartilhar isso ou aquilo e acabam exacerbando suas posições. Além do mais, gostemos ou não, é inegável que o facebook hoje corresponde a um objeto de análise social importantíssimo, já que é a rede social mais utilizada atualmente.

Nesse sentido, também parto do princípio que quem usa facebook tem um mínimo de conhecimento sobre as coisas que a cercam. (E mais uma vez trago aqui uma opinião minha.) Creio que aqueles que usem facebook, seja por um computador, um tablet ou celular, têm o mínimo de renda necessário para acessá-lo. Logicamente, se tais pessoas têm um mínimo de renda, é de se supor que tenham um mínimo de conhecimento sobre o que ocorre no país – em outras palavras, são pessoas minimamente informadas, ou seja, não são o matuto do interior que não sabe de nada que ocorre na capital (para usar outro estereótipo, claro que meramente exemplificativo).

Dito isso (tudo), chego à conclusão apontada antes: as pessoas não são democráticas. Pode até ser que o regime jurídico-político seja (estou sendo aqui bem benevolente, mas isso é outra história), mas as pessoas, em geral, não o são.

Tenho o costume, de tempos em tempos, de colocar pontos polêmicos no meu perfil do facebook e ver as respostas. Muitas vezes começam “tranquilas”, mas em seguida a briga se estabelece. E é daqui que tiro meus argumentos sobre a falta de democraticidade do indivíduo:

  1. As pessoas precisam sempre estarem certas. Ou seja, se a pessoa “A” afirma que o céu é amarelo e a pessoa “B” acha que o céu é verde, uma necessáriaobrigatoriamente precisa convencer a outra de que está certa, de maneira a haver uma única opinião “correta”. Provavelmente as pessoas “A” e “B” não conseguirão seguir suas vidas partindo do princípio de que a democracia pressupõe a (co)existência de opiniões divergentes, cabendo a algum método definir qual será a opinião “vencedora” (método este, na atualidade, que é o da maioria, ainda que eu tenha inúmeras ressalvas a tal critério). A existência de uma única opinião – seja lá qual for – é o contrário da democracia – isso sim é um regime autoritário e ditatorial, aquele no qual só há uma forma de pensar.
  2. Como consequência do item anterior, havendo uma única verdade (a sua própria, é claro), todas as demais estão erradas e, portanto, devem se conformar à “correta”. Em outras palavras, não pode haver dissidência e, consequentemente, não podem existir os direitos das minorias. Todo regime democrático que se preze precisa respeitar e garantir os direitos das minorias. A partir do momento em que você pretende impor sua única verdade como absoluta e, mais ainda, parte do princípio de “ou me seguem, ou serão excluídos, você já está sendo ditatorial e autoritário, e não democrático.
  3. Isso tudo leva à criação de estereótipos, o que não é nada bom para um ambiente democrático. O que quero dizer é o seguinte: pressupõe-se que o eleitor de Dilma é pobre, depende do Bolsa-Família, apoia Cuba, é ateu e quer implantar o socialismo no Brasil. Da mesma forma, pressupõe-se que o eleitor de Aécio faz parte “da elite”, quer privatizar todo o Brasil, é contra a união estável homoafetiva e anda de helicóptero pelas grandes cidades. Ou seja, declarar-se eleitor de “A” ou “B” traz já embutida uma série de “padrões” – e a imposição de tais “padrões”, obviamente, não é nada democrática.
  4. Por fim (mas um fim não exaustivo, ou seja, pode(ria) haver outros argumentos nesta sequência), a democracia pressupõe a troca de ideias e de opiniões de maneira que se chegue a um consenso. O que percebo, nos “embates” facebook afora, é que as pessoas em geral não estão dispostas a ouvir o outro. As pessoas não estão dispostas a ver o que a opinião “contrária” tem de boa para se chegar a um consenso que melhore a vida para todos. Assim, mais uma vez verifica-se a postura ditatorial: a única forma de reduzir a inflação é a minha, e a sua proposta, ainda que tenha pontos positivos, não será adotada – eu nem mesmo a escutarei! – porque… porque ela não é a minha proposta, é a sua, e portanto não presta.

Como enfatizei acima, estas ideias fazem parte de uma percepção originada a partir do facebook, mas que também se reproduz em outras redes. No whatsapp, por exemplo: enquanto escrevia este texto, em determinado grupo do qual participo e que é composto majoritariamente por eleitores do Aécio, uma componente lançou suas ideias e, quando questionada na base das mesmas – ou seja, quando questionada acerca dos fundamentos da ideia -, ela saiu do grupo, dizendo que o mesmo é composto apenas por reacionários. Ou seja, em vez de ficar e debater a questão de maneira democrática, decidiu sair do grupo estereotipando a todos.

E você? O que acha disso tudo? Você é uma pessoa democrática ou ditatorial? Concorda com as ideias que apresentei acima? Participe deixando abaixo seus comentários. Eles serão muito bem-vindos para que possamos debater não apenas o estado brasileiro enquanto democracia (?), mas também a nós mesmos enquanto cidadãos.

0 thoughts on “Vamos falar de democracia?

  1. Concordo plenamente com suas idéias sempre pensei sobre isso. Sou aluno do ensino médio já debati varias idéias politica sempre respeitando a ideia e a opinião do outro mesmo que eu não concorde. Debati com um professor petista, ele não quis nem saber o que eu tinha pra falar a opinião dele já esta formada, e acredito que por eu ser jovem não acha que eu tem experiência para debater com ele. Achei uma falta de educação mas respeito a sua opinião e sua experiencia politica kkk.
    Quero parabeniza-lo pelo seu trabalho gostei muito.Obrigado

    • Olá! Obrigado pela sua presença por aqui. Fico muito satisfeito em saber que você debate ideias políticas e, mais ainda, que eu posso contribuir com isso. Uma pena a postura de quem você citou, mas creio que manter a tranquilidade e buscar mais argumentos seja a melhor maneira de agir. Se puder compartilhar meu texto, fico agradecido. Um abraço e volte sempre!

  2. Sim, não somos democráticos. Quando vemos alguém defender veementemente a sua opinião, nem curtimos, deixamos de lado. Ele é do outro lado, pensamos. E passamos, deixamos o outro falando sozinho…. ou com aqueles da mesma opinião.

  3. Boa noite Matheus,

    Sua pergunta, “Você é uma pessoa democrática ou ditatorial?” realmente é um verdadeiro “tapa no rosto”, a minha singela percepção, caro Matheus, está em que a vida nos ensina a sermos uma hora democráticos e em outra ditatorial. Por mais que tenhamos em nossa mente que, o que tem que prevalecer é a democracia, há momentos em nossa vida que vamos precisar defender nosso ponto de vista, mesmo respeitando a outra pessoa, e ai na maioria das vezes, não importa a opinião do outro, pois a sua já está formada e fixada, embora o diálogo seja saudável e a conversa termine tranquila, se você tem em sua mente que vc está certo no que pensa, vai para casa pensando:…”Ele acha isso, mas a minha opinião eu não mudo..”

    Não sei se estou sendo claro. Pegando-se por exemplo alguns fóruns de discussões em determinados sites, sobre a atual disputa por uma vaga de Presidente da República, vamos ficar diantes de embates puramente ditatoriais, e posso estar exagerando, mas em um universo de 100 mensagens, acredito que será muito se houver uma ou duas em que seus interlocutores se respeitam e aceitam a opinião um do outro de forma democrática.

    Como disse acima, caro amigo, sua pergunta é um verdadeiro “tapa no rosto”, pois léva-nos a refletir nossas atitudes diariamente nos fazendo acreditar que essa missão de sermos sempre, na medida do possível, democráticos é muito árdua, e nesse contexto, acredito que o único ser humano que cumpriu essa missão, digamos em cem por cento, foi Jesus Cristo.

    Finalizando, concordo com seu pensamento e explanação, a missão é árdua, mas não difícil, bastando apenas que estejamos nos policiando em cada embate de nossas vidas, sabendo respeitar a opinião do outro.

    Respondendo á sua pergunta, se me permite usar esse termo, acho que somos

    DITATODEMOCRATAS!!! rsrsrsrsr

    Forte abraço!!

  4. Bom dia Matheus,

    Um texto muito reflexivo com sempre.

    Sou uma pessoa Democrática quando me convêm. Contudo uma pessoa ditatorial e autoritária na maior parte do tempo, pois é a maneira mais fácil de realizar os objetivos individuais (Ego).

    A regra é que vivemos em uma democracia velada, em todos os aspectos existes na atualidade em nosso país e com isso permite-nos escolher em qual momento utilizar das duas opções democracia/autoritarismo, lembrando que sempre em nosso favor.

    A exceção é que muitos afirmam que ser democrático é expressar as opiniões pessoais e dizer ser livre para escolher seus candidatos, acreditando que viver em uma democracia e poder votar é estar em um estado democrático de direito, só isso basta.´

    Por sua vez quando em seu texto no que diz a respeito das afirmativas do Faceboock discordo quando: ” Creio que aqueles que usam Faceboock […] tem renda, e conhecimento sobre o que ocorre no país.” Meu caro, convenhamos que os brasileiros que utilizam as redes sociais não são mais “matutos do interior que não sabem de nada” são apenas matutos da capital que estão distorcendo a finalidade das redes sociais e estão se lixando para os problemas do país, pois o que eles querem é ostentar uma vida que não tem.

    Por fim, percebe-se que quando em uma “democracia” o representante eleito pelo povo, passa a dividir o povo, em classes, cor, religião, opção sexual, tocando o rebu, fazendo com que o povo não acredite na tal democracia, surgi assim as discussões intermináveis, ocorrendo o chamado desgoverno, pois governar para uma maioria é não levar em consideração a democracia.

    Forte Abraço.

    • Oi Wellington, bom dia! Obrigado pela sua presença por aqui.

      Concordo com você – “matuto do interior” e “matuto da capital”. Foi apenas para falar de maneira bem generalista mesmo, tentando ser didático no texto. Mas como eu disse, concordo contigo, já que o mero acesso a redes sociais não faz ninguém intelectualmente melhor (se bobear, apenas piora).

      Por fim, interessante e oportuna a reflexão de que “governar para uma maioria é não levar em consideração a democracia”. Houve um seminário ontem aqui em Lisboa e o palestrante falou exatamente isso: divisões não fazem parte de um sistema democrático, e sim o consenso (até porque a unanimidade seria impossível).

      Um abraço e volte sempre!

  5. Ótimo texto!! Concordo com vc! E neste sábado ouvi de um colega (também seu conhecido) que eu sou rica, ando de helicóptero, filinha de papai, que nunca precisei me esforçar pra nada e por isso (lógica e consequentemente ) voto no Aécio. Tal pessoa não quis ouvir nenhum tipo de argumento é repetia os seus “fundamentos ” aumentando o tom. Por isso, e por outros motivos, nem sempre se deve discutir política, pois nem todos tem maturidade para ouvir e debater. Parabéns pelo texto. Seria ótimo se a maioria das pessoas se interessassem por leitura e buscassem fontes e assuntos diversos.

    • Oi Andréia! Obrigado pelo seu comentário. Apesar de que tenho leve discordância sobre não discutir política, ainda que entenda sua linha de raciocínio. Acho que devemos tentar, mas se o outro não quiser… A coisa complica!

      E é uma pena que as pessoas continuem criando tais divisões como as que você citou. Também ouvi muito isso – de que sou rico, especialmente agora que estou em Lisboa estudando. Afinal de contas, é muito mais fácil “acusar” de algo que se queria ser do que ver os tombos e dificuldades que passamos para chegar onde chegamos, né?

      Obrigado pela sua presença e volte sempre!

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