o reconhecimento da diversidade

O reconhecimento da diversidade


Hoje quero fazer uma postagem mais pessoal e menos acadêmica, ainda que o conteúdo possa ser entendido também sob este último aspecto. Quero falar rapidamente sobre o reconhecimento da diversidade no Canadá em comparação ao Brasil.

Como alguns sabem, escrevo esta postagem diretamente de Toronto, no Canadá. Estou aqui para realizar algumas pesquisas na Universidade de Toronto. E também para melhorar meu inglês.

Hoje pela manhã tomei café em um McDonald’s. Sim, o “McCafé” é muito bom e barato. E ainda “sustenta”. Vale a pena, tanto que muitos canadenses fazem isso. Não parava de entrar e sair gente no McDonald’s em que eu estava.

Enquanto estava esperando meu pedido fiquei reparando nas pessoas que entravam e saíam. Gente de tudo quanto é “tipo”. Asiáticos, ocidentais, brancos, negros, altos, baixos, gente de chinelo, gente de cabelo pintado, gente de terno e gravata. Gente de terno, gravata e cabelo pintado. Um rapaz com um moletom da Lacoste e com uma bermuda “da feira”. Gente indo trabalhar e gente chegando da balada (com certeza, pelo menos dois rapazes).



De repente me peguei pensando algo como “quanta gente estranha!”. Pensei nisso especialmente quando entrou uma mulher alta, com seus 1,85m mais ou menos. Cabelo tricolor, loiro, azul e rosa, tudo misturado. Parecia que tinha levantado da cama e ido direto pra lá. Usava um moletom cinza com a manga direita indo até um pouco depois do cotovelo. De bermuda também de moletom cinza, mas aí era a da perna esquerda que era mais curta. Com meias brancas que subiam até um pouco abaixo do joelho. E de chinelo estilo “Rider”.

E ao mesmo tempo em que percebi a chegada dela, vi que ninguém se importou. Ninguém olhou pra ela de lado, com “olho torto”. Daqueles que estavam acompanhados, ninguém comentou com o outro sobre a estranheza dela. Ninguém se importou com a forma pela qual ela estava vestida.

Então pensei: o que é “ser estranho”? Qual a definição de “gente estranha”? Será que aquela mulher, se olhasse para a forma em que eu me vestia — uma calça jeans, tênis, camisa marrom, mochila nas costas com o computador — pensaria o mesmo de mim? Será que seria eu o estranho pra ela?

A situação me fez pensar sobre como aqui no Canadá há efetivamente o reconhecimento da diversidade. Em geral as pessoas não se importam com o que você veste. Não se importam a respeito de onde você trabalha. Vi isso no curso de inglês: muitos alunos estrangeiros dizem que vão trabalhar em um restaurante como garçom, ou como cozinheiros. Ou como ajudantes de limpeza. Empregos para os quais muitos brasileiros “torcem o nariz”. Mas as pessoas falam e pronto, ninguém acha ruim, ninguém olha de olho torno, ninguém acha “oh, que ruim trabalhar nisso né”.



E é este o ponto: o reconhecimento da diversidade ocorre quando as pessoas não se importam com sua condição social. Ou melhor: não te “julgam” pela sua situação social. Aceitam e respeitam a situação social uns dos outros, sem sentirem-se melhores ou piores porque estão trabalhando nesta ou naquela função. Sem preconceitos nem pré-conceitos.

(Claro, não estou dizendo que todos os canadenses são bonzinhos. Não é isso. Claro que deve haver muitos preconceituosos e até racistas, quem sabe. Estou apenas aqui refletindo sobre minhas percepções.)

Outro momento em que vi claramente o reconhecimento da diversidade foi durante a “Pride Parade” de Toronto, no último dia 25 de junho. A Parada Gay aqui é uma das maiores do mundo. Durante o mês de junho ocorrem uma série de eventos em toda a cidade relativas ao tema. E no último domingo do mês ocorre a Parada em si, com duração de praticamente 4 h. E isso só a passagem dos diversos grupos. Porque a festa continuou até tarde da noite, como aliás já havia ocorrido na sexta e sábado anteriores.

Aí lanço outra pergunta: quantos brasileiros estavam na festa como um todo?



Dificílimo responder, porque em um evento com mais de 1 milhão de pessoas é logicamente complicado. Eu poderia estar em um ponto específico e haver outros brasileiros em outros pontos do evento.

Mas o fato é que não é tão difícil encontrar brasileiros em Toronto. Em 90% das vezes em que estou na rua ouço alguém falando português. Ou seja, se Toronto tem 4 milhões de habitantes e ouço constantemente português, seria de se esperar a mesma constância durante a “Pride Parade”. Mas não. Durante os 3 principais dias do evento (23, 24 e 25 de junho) ouvi português apenas duas vezes.

Repito: este é um relato pessoal e, portanto, extremamente subjetivo. Mas acredito ser possível dizer que “há algo errado” quando no dia a dia escuto português com frequência na rua e em um evento voltado “para um grupo específico” esse mesmo português não é escutado. Especialmente em um evento de tamanha envergadura aqui na cidade. (E digo “para um grupo específico” entre aspas mesmo porque se engana quem acredita que a “Pride Parade” é voltada apenas para o grupo LGBTQ. Muitas famílias estavam presentes. Pessoas literalmente de todas as idades, de crianças a idosos. O Primeiro-Ministro do Canadá, acompanhado da família, estava presente.)



E se fosse no Brasil? Será que haveria tal tolerância? Será que as outras pessoas que não participam de tal evento aceitariam sua realização sem comentários pejorativos? Será que a população concordaria com a presença, por exemplo, de um Presidente da República em um evento como este? (Não do atual, que é um conservador de primeira grandeza, infelizmente.) Será que o brasileiro em geral, que se gaba dessa diversidade cultural (sim, nós brasileiros adoramos dizer que existe imensa diversidade cultural no Brasil — e realmente há), efetivamente reconhece tal diversidade? E como disse na pergunta acima, será que toleraria tal diversidade cultural? Sinceramente, pelo que vejo estando fora do país, acho que não.

Trazendo agora para a esfera política, a ausência de tolerância do brasileiro com a diversidade é reflexo da falta de democracia do nosso povo. Já escrevi sobre isso antes. Formalmente nossas instituições são democráticas, mas o cidadão não o é. Consequentemente não há tolerância, o que me leva a pensar que o reconhecimento da diversidade no Brasil é muito mais “para inglês ver” do que real, efetivo.

Em suma: o reconhecimento da diversidade no Canadá é fato. Diferentemente do caso brasileiro, em que as pessoas “dizem” existir o reconhecimento da diversidade, mas na prática torcem o nariz ou viram os olhos para aquelas ideias — e pessoas — que acham “diferentes”, aqui no Canadá parece haver realmente uma conscientização de que “ser diferente” é exatamente isso. “Ser diferente” não é “ser melhor” ou “ser pior”. Ser diferente é apenas ser você mesmo, sem se importar com o que os outros acham ou pensam. E ainda assim estar em “pé de igualdade” com os demais.


E você, o que acha do tema? Deixe abaixo seus comentários ou se preferir entre em contato diretamente comigo.

Um abraço a todos e até a próxima!

Prof. Matheus Passos

Deixe um comentário:

%d blogueiros gostam disto: