Nós precisamos falar sobre estupro, cara.

Por Márcio Morais

Já falei aqui e nada me faz pensar diferente: um post meu vai atingir no máximo 30 a 35 amigos e colegas, não me vendo como um guru, um intelectual ou um sabichão. Sou só um cara com acesso à internet. E, também por isto, nós precisamos falar de estupro. Como “normais”, despidos de qualquer hipocrisia, como homens comuns.

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Há salvação quando se aposta no messianismo jurídico?

Por Rosivaldo Toscano Jr. – 13/04/2016

O messianismo, dentro do espectro sociopolítico, caracteriza-se pela emergência de uma figura que, assim como o Messias bíblico, encarna e simboliza a redenção em um momento de conturbação social. É o salvador. Nele se corporificam a verdade, a bondade e a perfeição. Por isso que a figura do Messias é envolta em características sobre-humanas, portadora das virtudes mais nobres, dos valores mais caros ao imaginário social.

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Sobre coligações partidárias no Brasil

Uma das características do sistema político-eleitoral brasileiro é a possibilidade de realização de coligações entre os partidos políticos. Contudo, fica o questionamento: apesar de serem permitidas, são constitucionais?

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Livro “O papel do Direito na solução das demandas contemporâneas”

O mundo está em constante alteração. Se até meados do século XX as transformações tecnológicas demoravam a chegar ao dia a dia do cidadão, a partir de então o processo de transferência de tecnologia rumo ao cidadão acelerou-se cada vez mais.

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Entrevista à Rádio Justiça

Acabo de dar entrevista para a “Rádio Justiça”. Falei acerca das recentes manifestações ocorridas no Brasil e de que maneira elas estão relacionadas com a democracia brasileira.

Marque na sua agenda: amanhã, dia 24 de março, a partir das 9h35 (horário de Brasília) na “Rádio Justiça”, pelo rádio ou diretamente pelo site: http://www.radiojustica.jus.br.

Vale a pena conferir!🙂

O gigante ainda precisa acordar

Lembro-me de que há certo tempo atrás havia uma propaganda que mostrava um “gigante” surgindo a partir do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro. O “slogan” da propaganda foi rapidamente apropriado por manifestantes, especialmente nas manifestações de 2013, afirmando que “o gigante acordou”.

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Dica de estudo: QUEM COPIA NÃO ENTENDE!

A ciência não é apenas o acúmulo de informações. Também constitui uma maneira de pensar, um modo de abordar os problemas. (GREENE, Robert. Maestria. Trad. Afonso Celso da Cunha Serra. Rio de Janeiro: Sextante, 2013, p.115.)

Título original do texto: QUEM COPIA NÃO ENTENDE, ou, me diz, você está na faculdade para ser jurista ou para ser taquígrafo?

COMEÇANDO:

Já vou começar dizendo: não é culpa sua; você faz isso porque ninguém te ensinou/estimulou a fazer diferente. Mas isso não justifica, entretanto, você não querer melhorar… Convido à reflexão. Melhoremos juntos. No final do texto, dou umas dicas interessantes. Vamos lá.

A CAUSA DO (SEU) PROBLEMA:

O nosso sistema de ensino, de há muito vigente, é estúpido. Não há outra palavra, vai essa mesma. Estúpido. Pode ser que, aqui ou ali, existam exceções – escolas, professores e alunos diferenciados. Pode ser… Mas, como se diz, a exceção justifica a regra. Sei que existem casos excepcionais, mas o SISTEMA é estúpido, a mecânica geral da coisa é errada.

Qual o motivo do chilique? Vários, mas vamos nos concentrar em um ponto específico: o sistema de ensino não prepara o aluno para aprender/refletir. O sistema de ensino te adestra para repetir. E antes que você, amigo pedagogo, comece a falar da LDB e de Gilberto Freire e coisas do tipo, já digo que eu não estou tratando do mundo ideal-teórico-desejado, onde esses dois personagens se encontram. Estou a falar, ao invés, da linha de frente do sistema de ensino: da boa e velha sala de aula do mundo real. Digamos que estou a falar do chão de fábrica. Das coisas como efetivamente são, não de como queríamos que fossem. Nesse sistema, o nosso aluno é ensinado a repetir, não a construir. Esse o ponto de partida deste texto.

Isso daria muito pano pra manga, mas não vou me delongar aqui. Por ora, basta pensar – e adoro essa idéia – que o nosso sistema de ensino, assim como a pirâmide de Kelsen, está estruturado de cabeça para baixo: a ponta do sistema (provas de vestibular ou congêneres de acesso ao ensino superior) determinam o funcionamento das instâncias básicas. Nosso aluno, modo geral, não é formado para pensar, refletir, decidir, sentir (sim! sentir!), avaliar, entender e aplicar. Nosso aluno é formado para reproduzir na proveca do vestibuleco aquilo que lhe foi entulhado pela decoreba – mais ou menos evidente, mas sempre presente – ao longo dos anos.

(Preciso de um parêntese para dizer que, no ensino do Direito no Brasil, encontramos uma realidade muito peculiar brasileira, que é a deformação do ensino jurídico pela força que a indústria dos concursos ganhou no meio social. Como as carreiras de Estado costumam atrair o interesse de muitos, e como o acesso aos cargos se dá por concurso, e como as matérias são compostas por conteúdo jurídico, na escala de valores/preocupações do aluno-médio a preocupação em “saber responder” o V ou F do concurso se tornou preponderante sobre o conhecimento aprofundado das teorias. Fecho parênteses. Como costumamos dizer, o maior doutrinador de Direito, hoje, no Brasil, é o carinha anônimo, formado sei lá aonde, que elabora a prova do CESPE.)

Bem… Se seria possível um sistema diferente, e como ele seria, já é uma outra discussão. Não tenho resposta para tal questão e não vou derivar o argumento para essa linha. Porém, o que quero dizer, até aqui, em essência, é que nosso aluno padrão chega ao ensino superior com alto grau de capacidade… Capacidade de reprodução acrítica!

Vou repetir, querido aluno, a CULPA NÃO É SUA, te (de)formaram assim, você é assim porque o sistema operou sobre você, desde que você nasceu, para que você ficasse assim… Mas atenção! Você não é culpado pelo problema, mas é RESPONSÁVEL PELA SOLUÇÃO! Continuemos.

O PROBLEMA CHEGA AO ENSINO SUPERIOR:

Quando o aluno chega à faculdade, ele repete o padrão que foi a ele ensinado durante toda sua vida – copia, decora e repete. De verdade, diz pra mim se não é a cara do sistema de ensino essa frase? Então o aluno faz exatamente aquilo que tem competência – aquilo para que foi treinado. Ele senta e copia. E aí estou chegando aonde quero.

Qual o problema em copiar o que o professor fala? Não haveria nenhum problema, querido aluno, se você soubesse fazer anotações de modo correto.

E qual é o modo correto? Permita-me falar primeiro do modo errado, ok?

Tá bem… Me diz qual é o modo errado… O MODO ERRADO de se fazer anotações é querer registrar rigorosamente tudo que foi dito, palavra por palavra, letra por letra, até os espirros e gaguejos que o professor fala. Esse erro é fruto do sistema defeituoso que mencionei. Foi isso que o aluno aprendeu a fazer até hoje.

E por que isso é um erro? Porque isso demonstra que o aluno está se ocupando da coisa errada! Que coisa errada? Quando o aluno adota essa prática, ele demonstra que sua energia está voltada para a mera retenção de informações, ou seja, memorizar o conteúdo, ou seja, a parte decoreba do processo do aprendizado – entende-se isso facilmente: ele anota cada vírgula e cada letra porque ele sabe que, sendo ele um ser humano, ele irá esquecer 80% do que foi dito em alguns minutos. A anotação para ele, então, funciona como um HD externo – ele anota para reter no papel aquilo que ele sabe que não será retido na memória.

Mas por que mesmo que isso é um erro? Porque, ao agir dessa forma, deixa de aproveitar aquilo de ESPECÍFICO que a sala de aula tem para te oferecer – ou seja, a COMPREENSÃO de como se opera/trabalha/pensa/processa aquela informação. Esse é o ponto, entende?

Quase entendendo… Mas não é importante reter informações? Não é importante lembrar de um conjunto de regras básicas (pensando no estudante de Direito)? Sim! Claro! A retenção do conteúdo é parte essencial do aprendizado. PORÉM, quero que você perceba que isso pode ser alcançado sem a sala de aula – por meio de livros, estudo direto da lei etc. etc. etc. Em outras palavras, se você está na faculdade, espera-se que você saiba ler. Se você sabe ler, você não precisa do professor para saber o que está escrito no art. 1º do Código. O ganho que o professor tem a te oferecer é te ajudar a enxergar como você pode trabalhar com o art. 1º. É isso.

UM OUTRO CAMINHO:

E se eu não fizer anotações desse tipo, vou fazer o quê em sala de aula? (Somos tão alopradamente condicionados pelo sistema que nos deformou que não conseguimos sequer ver uma alternativa de comportamento diverso…) Então, durante as aulas, debates, palestras seu ESFORÇO DEVE SER VOLTADO PARA COMPREENDER (a) AS INFORMAÇÕES CENTRAIS e (b) A TÉCNICA DE RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS que te está sendo demonstrada. Toda aula, de todo professor, bem ou mal, de modo mais claro ou menos claro, mas toda aula será composta por essa combinação: informação mais aplicação.

Então, por exemplo, se o professor começa a explicar o conceito de contrato, o aluno típico já abaixa a cabeça, aciona o motorzinho na mão e se concentra em repetir no papel aquilo que o professor está dizendo oralmente. Ao voltar sua atenção para a atividade da cópia, ele vê reduzida em muito seu potencial de compreensão.

Como assim? Quando você está preocupado em registrar no seu caderno cada sílaba exata, na sequência exata que o professor pronunciou, você diminui sua força de percepção daquilo que é que central e relevante.

Sabe o que é mais engraçado? É que o aluno está preocupado em anotar a sequência exata de palavras que o professor disse, mas o próprio professor não tem essa memória! O professor tem a compreensão do tema, mas a explicação é feita com palavras e sequências e rotinas diferentes, que mudam a cada oportunidade. O conteúdo é o mesmo, mas a forma de externalizá-lo muda. Não temos um conceito decorado do que seja o contrato, por exemplo. Temos a compreensão do que ele é. Se tivermos que explicar em momentos diferentes, exporemos a mesma idéia, mas com palavras diferentes.

Um fato comum de sala me ocorre agora: quando o aluno pede para o professor repetir, o professor repete as mesmas idéias, mas, obviamente, não sendo ele um gravador, repete numa sequência ligeiramente alterada, mantendo o conteúdo, mas usando uma expressão diferente aqui ou ali. Aí o aluno-copista, que está preocupado em fazer aquele “registro fiel” da primeira frase, fica indignado! “Ahhh, professor… Vou rasurar o meu caderno…” Seria um cômico, se não fosse trágico – a tragédia está em ser esse o evidente sintoma do problema que estou a apontar.

Salvo algumas exceções mais raras, no âmbito da graduação, rigorosamente todo o conteúdo que o professor expõe já está nos livros e, no caso do Direito, nos Códigos. Os professores te passam informações que já estão “previamente anotadas”, não sendo necessário, a rigor, registrá-las, pois elas não serão perdidas, já que estão nos livros e leis – inclusive, sempre se recomenda que você faça a leitura do material de estudo ANTES da aula, ampliando seu aproveitamento do encontro de sala.

Então, como proceder diante de uma aula/exposição? Sua concentração deve estar voltada para COMPREENDER as idéias centrais, bem como na FORMA COMO O PROFESSOR USA A INFORMAÇÃO. Voltando ao nosso exemplo, esteja concentrando em entender a idéia de contrato, tendo clareza do que é central, de quais são as “chaves” de compreensão.

Também concentre sua atenção na forma como os exemplos são expostos – sobretudo exemplos que trabalham casos. Ou seja, atente para a SEQUÊNCIA DE RACIOCÍNIO DA APLICAÇÃO do conceito em determinadas situações – reais ou imaginadas para fins didáticos.

EXPERIMENTE FAZER DIFERENTE:

E a forma correta? Você disse que tinha uma forma correta? Sim, eu disse. A forma correta é aquela que registra, de modo sintético, os pontos-chave da explicação, os quais funcionarão posteriormente, nos momentos de sua revisão, como ganchos de memória para o conteúdo debatido.

A boa anotação não é aquela que registra literalmente cada sílaba dita, mas a que registra apenas a sequência das idéias. Como quem anota um roteiro – usando novamente o exemplo de antes, poderíamos imaginar a seguinte anotação:

  • Tema da aula: contrato.
  • Conceito de contrato: consentimento;
  • Diferença: contrato x instrumento;
  • Formação: proposta mais aceitação;
  • Princípio da boa-fé: boa-fé objetiva x subjetiva;
  • Princípio da função social;
  • Princípio da equivalência material;
  • Deveres anexos;
  • Contratos atípicos – permissão;
  • Pacta corvina – proibição.

Essa anotação fictícia, que uso aqui como exemplo, é o esquema de 3 a 4 horas de aula sobre contratos. Então! De 3 a 4 horas esquematizadas em algumas linhas! É isso! E durante o resto do tempo, descontados os segundos que levei para escrever essas linhas, posso estar concentrado em tentar perceber qual a idéia central de cada conceito, como o professor usou os conceitos em exemplos construídos em sala, posso eventualmente lembrar de alguma situação que tenha relação com o tema e por aí vamos…

Você pode até anotar o gatilho de memória para o exemplo dado! Não é registrar toda a história, mas apenas a palavra-chave que te fará dela recordar. Exemplo: o professor poderia ter contado sobre ocaso dos agricultores de tomate que saíram vitoriosos numa lide, usando como ferramenta de debate no processo o princípio da boa-fé objetiva (caso real, que simplificamos para usar de exemplo em sala). Você poderia anotar:

  • Caso dos agricultores – venda frustrada – boa-fé objetiva;

Pergunta do angustiado: mas se eu esquecer o exato conceito de contrato? Recupere no livro!!! Se eu esquecer o exato conceito de pacta corvina? Recupere no livro!!! Já está anotado lá!!! Se você usou bem sua atenção na sala de aula, você terá COMPREENDIDO o que essas figuras são, de modo que sua leitura posterior, recuperando a memória das informações, será EXTREMAMENTE FACILITADA.

Mas e as exatas palavras do professor? As exatas palavras não importam, importam as idéias centrais!!! Se ele disse A-C-D-B, não importará se você disser B-C-A-D, desde que tenha trazido as idéias-chave para o tratamento da questão.

Entendeu? Ou quer que eu repita?

(Original aqui.)

“Uma carta aberta ao Brasil”

O título chama a atenção. Aí você vai ler o texto e percebe que o autor é um americano — e que o texto original foi feito em inglês. E sim, eu sei que você provavelmente já deve ter lido este texto, que viralizou na internet nesta semana que passou. E talvez até mesmo tenha lido alguma das críticas ao texto.

Mesmo assim, tomo a liberdade de divulgar o texto logo abaixo. Se você ainda não leu, vale a pena gastar 13 minutos do seu tempo (é o tempo estimado para a leitura dele todo). Pra mim vale a pena porque: 1) Concordo plenamente que o problema é o brasileiro, como já tive oportunidade de dizer em outras ocasiões; 2) Chama a atenção o fato de ser um “gringo” a falar coisas que, muitas vezes, preferimos deixar embaixo do tapete — mas que efetivamente precisam ser ditas.

Volto ao tema em breve aqui no site. Mas antes, deixem a seguir seus comentários. O que acham do texto? Concordam ou não?

“Uma carta aberta ao Brasil”

Querido Brasil,

O Carnaval acabou. O “ano novo” finalmente vai começar e eu estou te deixando para voltar para o meu país.

Assim como vários outros gringos, eu também vim para cá pela primeira vez em busca de festas, lindas praias e garotas. O que eu não poderia imaginar é que eu passaria a maior parte dos 4 últimos anos dentro das suas fronteiras. Aprenderia muito sobre a sua cultura, sua língua, seus costumes e que, no final deste ano, eu me casaria com uma de suas garotas.

Não é segredo para ninguém que você está passando por alguns problemas. Existe uma crise política, econômica, problemas constantes em relação à segurança, uma enorme desigualdade social e agora, com uma possível epidemia do Zika vírus, uma crise ainda maior na saúde.

Durante esse tempo em que estive aqui, eu conheci muitos brasileiros que me perguntavam: “Por que? Por que o Brasil é tão ferrado? Por que os países na Europa e América do Norte são prósperos e seguros enquanto o Brasil continua nesses altos e baixos entre crises década sim, década não?”

No passado, eu tinha muitas teorias sobre o sistema de governo, sobre o colonialismo, políticas econômicas, etc. Mas recentemente eu cheguei a uma conclusão. Muita gente provavelmente vai achar essa minha conclusão meio ofensiva, mas depois de trocar várias ideias com alguns dos meus amigos, eles me encorajaram a dividir o que eu acho com todos os outros brasileiros.

Então aí vai: é você.

Você é o problema.

Sim, você mesmo que está lendo esse texto. Você é parte do problema. Eu tenho certeza de não é proposital, mas você não só é parte, como está perpetuando o problema todos os dias.

Não é só culpa da Dilma ou do PT. Não é só culpa dos bancos, da iniciativa privada, do escândalo da Petrobras, do aumento do dólar ou da desvalorização do Real.

O problema é a cultura. São as crenças e a mentalidade que fazem parte da fundação do país e são responsáveis pela forma com que os brasileiros escolhem viver as suas vidas e construir uma sociedade.

O problema é tudo aquilo que você e todo mundo a sua volta decidiu aceitar como parte de “ser brasileiro” mesmo que isso não esteja certo.

Quer um exemplo?

Imagine que você está de carona no carro de um amigo tarde da noite. Vocês passam por uma rua escura e totalmente vazia. O papo está bom e ele não está prestando muita atenção quando, de repente, ele arranca o retrovisor de um carro super caro. Antes que alguém veja, ele acelera e vai embora.

No dia seguinte, você ouve um colega de trabalho que você mal conhece dizendo que deixou o carro estacionado na rua na noite anterior e ele amanheceu sem o retrovisor. Pela descrição, você descobre que é o mesmo carro que seu brother bateu “sem querer”. O que você faz?

A) Fica quieto e finge que não sabe de nada para proteger seu amigo? Ou
B) Diz para o cara que sente muito e força o seu amigo a assumir a responsabilidade pelo erro?

Eu acredito que a maioria dos brasileiros escolheria a alternativa A. Eu também acredito que a maioria dos gringos escolheria a alternativa B.

Nos países mais desenvolvidos o senso de justiça e responsabilidade é mais importante do que qualquer indivíduo. Há uma consciência social onde o todo é mais importante do que o bem-estar de um só. E por ser um dos principais pilares de uma sociedade que funciona, ignorar isso é uma forma de egoísmo.

Eu percebo que vocês brasileiros são solidários, se sacrificam e fazem de tudo por suas famílias e amigos mais próximos e, por isso, não se consideram egoístas.

Mas, infelizmente, eu também acredito que grande parte dos brasileiros seja extremamente egoísta, já que priorizar a família e os amigos mais próximos em detrimento de outros membros da sociedade é uma forma de egoísmo.

Sabe todos aqueles políticos, empresários, policiais e sindicalistas corruptos? Você já parou para pensar por que eles são corruptos? Eu garanto que quase todos eles justificam suas mentiras e falcatruas dizendo: “Eu faço isso pela minha família”. Eles querem dar uma vida melhor para seus parentes, querem que seus filhos estudem em escolas melhores e querem viver com mais segurança.

É curioso ver que quando um brasileiro prejudica outro cidadão para beneficiar sua famílias, ele se acha altruísta. Ele não percebe que altruísmo é abrir mão dos próprios interesses para beneficiar um estranho se for para o bem da sociedade como um todo.

Além disso, seu povo também é muito vaidoso, Brasil. Eu fiquei surpreso quando descobri que dizer que alguém é vaidoso por aqui não é considerado um insulto como é nos Estados Unidos. Esta é uma outra característica particular da sua cultura.

Algumas semanas atrás, eu e minha noiva viajamos para um famoso vilarejo no nordeste. Chegando lá, as praias não eram bonitas como imaginávamos e ainda estavam sujas. Um dos pontos turísticos mais famosos era uma pedra que de perto não tinha nada demais. Foi decepcionante.

Quando contamos para as pessoas sobre a nossa percepção, algumas delas imediatamente disseram: “Ah, pelo menos você pode ver e tirar algumas fotos nos pontos turísticos, né?”

Parece uma frase inocente, mas ela ilustra bem essa questão da vaidade: as pessoas por aqui estão muito mais preocupadas com as aparências do que com quem eles realmente são.

É claro que aqui não é o único lugar no mundo onde isso acontece, mas é muito mais comum do que em qualquer outro país onde eu já estive.

Isso explica porque os brasileiros ricos não se importam em pagar três vezes mais por uma roupa de grife ou uma jóia do que deveriam, ou contratam empregadas e babás para fazerem um trabalho que poderia ser feito por eles. É uma forma de se sentirem especiais e parecerem mais ricos. Também é por isso que brasileiros pagam tudo parcelado. Porque eles querem sentir e mostrar que eles podem ter aquela super TV mesmo quando, na realidade, eles não tenham dinheiro para pagar. No fim das contas, esse é o motivo pelo qual um brasileiro que nasceu pobre e sem oportunidades está disposto a matar por causa de uma motocicleta ou sequestrar alguém por algumas centenas de Reais. Eles também querem parecer bem sucedidos, mesmo que não contribuam com a sociedade para merecer isso.

Muitos gringos acham os brasileiros preguiçosos. Eu não concordo. Pelo contrário, os brasileiros tem mais energia do que muita gente em outros lugares do mundo (vide: Carnaval).

O problema é que muitos focam grande parte da sua energia em vaidade em vez de produtividade. A sensação que se tem é que é mais importante parecer popular ou glamouroso do que fazer algo relevante que traga isso como consequência. É mais importante parecer bem sucedido do que ser bem sucedido de fato.

Vaidade não traz felicidade. Vaidade é uma versão “photoshopada” da felicidade. Parece legal vista de fora, mas não é real e definitivamente não dura muito.

Se você precisa pagar por algo muito mais caro do que deveria custar para se sentir especial, então você não é especial. Se você precisa da aprovação de outras pessoas para se sentir importante, então você não é importante. Se você precisa mentir, puxar o tapete ou trair alguém para se sentir bem sucedido, então você não é bem sucedido. Pode acreditar, os atalhos não funcionam aqui.

E sabe o que é pior? Essa vaidade faz com que seu povo evite bater de frente com os outros. Todo mundo quer ser legal com todo mundo e acaba ou ferrando o outro pelas costas, ou indiretamente só para não gerar confronto.

Por aqui, se alguém está 1h atrasado, todo mundo fica esperando essa pessoa chegar para sair. Se alguém decide ir embora e não esperar, é visto como cuzão. Se alguém na família é irresponsável e fica cheio de dívidas, é meio que esperado que outros membros da família com mais dinheiro ajudem a pessoa a se recuperar. Se alguém num grupo de amigos não quer fazer uma coisa específica, é esperado que todo mundo mude os planos para não deixar esse amigo chateado. Se em uma viagem em grupo alguém decide fazer algo sozinho, este é considerado egoísta.

É sempre mais fácil não confrontar e ser boa praça. Só que onde não existe confronto, não existe progresso.

Como um gringo que geralmente não liga a mínima sobre o que as pessoas pensam de mim, eu acho muito difícil não enxergar tudo isso como uma forma de desrespeito e auto-sabotagem. Em diversas circunstâncias eu acabo assistindo os brasileiros recompensarem as “vítimas” e punirem àqueles que são independentes e bem resolvidos.

Por um lado, quando você recompensa uma pessoa que falhou ou está fazendo algo errado, você está dando a ela um incentivo para nunca precisar melhorar. Na verdade, você faz com que ela fique sempre contando com a boa vontade de alguém em vez de ensina-la a ser responsável.

Por outro lado, quando você pune alguém por ser bem resolvido, você desencoraja pessoas talentosas que poderiam criar o progresso e a inovação que esse país tanto precisa. Você impede que o país saia dessa merda que está e cria ainda mais espaço para líderes medíocres e manipuladores se prolongarem no poder.

E assim, você cria uma sociedade que acredita que o único jeito de se dar bem é traindo, mentindo, sendo corrupto, ou nos piores casos, tirando a vida do outro.

As vezes, a melhor coisa que você pode fazer por um amigo que está sempre atrasado é ir embora sem ele. Isso vai fazer com que ele aprenda a gerenciar o próprio tempo e respeitar o tempo dos outros.

Outras vezes, a melhor coisa que você pode fazer com alguém que gastou mais do que devia e se enfiou em dívidas é deixar que ele fique desesperado por um tempo. Esse é o único jeito que fará com que ele aprenda a ser mais responsável com dinheiro no futuro.

Eu não quero parecer o gringo que sabe tudo, até porque eu não sei. E deus bem sabe o quanto o meu país também está na merda (eu já escrevi aqui sobre o que eu acho dos EUA).

Só que em breve, Brasil, você será parte da minha vida para sempre. Você será parte da minha família. Você será meu amigo. Você será metade do meu filho quando eu tiver um.

E é por isso que eu sinto que preciso dividir isso com você de forma aberta, honesta, com o amor que só um amigo pode falar francamente com outro, mesmo quando sabemos que o que temos a dizer vai doer.

E também porque eu tenho uma má notícia: não vai melhorar tão cedo.

Talvez você já saiba disso, mas se não sabe, eu vou ser aquele que vai te dizer: as coisas não vão melhorar nessa década.

O seu governo não vai conseguir pagar todas as dívidas que ele fez a não ser que mude toda a sua constituição. Os grandes negócios do país pegaram dinheiro demais emprestado quando o dólar estava baixo, lá em 2008-2010 e agora não vão conseguir pagar já que as dívidas dobraram de tamanho. Muitos vão falir por causa disso nos próximos anos e isso vai piorar a crise.

O preço das commodities estão extremamente baixos e não apresentam nenhum sinal de aumento num futuro próximo, isso significa menos dinheiro entrando no país. Sua população não é do tipo que poupa e sim, que se endivida. As taxas de desemprego estão aumentando, assim como os impostos que estrangulam a produtividade da classe trabalhadora.

Você está ferrado. Você pode tirar a Dilma de lá, ou todo o PT. Pode (e deveria) refazer a constituição, mas não vai adiantar. Os erros já foram cometidos anos atrás e agora você vai ter que viver com isso por um tempo.

Se prepare para, no mínimo, 5-10 anos de oportunidades perdidas. Se você é um jovem brasileiro, muito do que você cresceu esperando que fosse conquistar, não vai mais estar disponível. Se você é um adulto nos seus 30 ou 40, os melhores anos da economia já fazem parte do seu passado. Se você tem mais de 50, bem, você já viu esse filme antes, não viu?

É a mesma velha história, só muda a década. A democracia não resolveu o problema. Uma moeda forte não resolveu o problema. Tirar milhares de pessoa da pobreza não resolveu o problema. O problema persiste. E persiste porque ele está na mentalidade das pessoas.

O “jeitinho brasileiro” precisa morrer. Essa vaidade, essa mania de dizer que o Brasil sempre foi assim e não tem mais jeito também precisa morrer. E a única forma de acabar com tudo isso é se cada brasileiro decidir matar isso dentro de si mesmo.

Ao contrario de outras revoluções externas que fazem parte da sua história, essa revolução precisa ser interna. Ela precisa ser resultado de uma vontade que invade o seu coração e sua alma.

Você precisa escolher ver as coisas de um jeito novo. Você precisa definir novos padrões e expectativas para você e para os outros. Você precisa exigir que seu tempo seja respeitado. Você deve esperar das pessoas que te cercam que elas sejam responsabilizadas pelas suas ações. Você precisa priorizar uma sociedade forte e segura acima de todo e qualquer interesse pessoal ou da sua família e amigos. Você precisa deixar que cada um lide com os seus próprios problemas, assim como você não deve esperar que ninguém seja obrigado a lidar com os seus.

Essas são escolhas que precisam ser feitas diariamente. Até que essa revolução interna aconteça, eu temo que seu destino seja repetir os mesmos erros por muitas outras gerações que estão por vir.

Você tem uma alegria que é rara e especial, Brasil. Foi isso que me atraiu em você muitos anos atrás e que me faz sempre voltar. Eu só espero que um dia essa alegria tenha a sociedade que merece.

Seu amigo,

Mark

Traduzido por Fernanda Neute

(Original aqui.)

Evolução histórica do Estado moderno

Na teoria político-jurídica um dos conceitos centrais é o do chamado “Estado moderno”. Contudo, vale perguntar: o Estado moderno corresponde a um único modelo teórico de Estado?

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